
Feche os Olhos - Robin Jones Gunn
Srie Selena 4


Olhos fechados, Selena fica se perguntando se Deus j no est cansado  de ouvir suas oraes com relao a Paul. Mas ela acaba reencontrando o  misterioso rapaz.
Nesse meio tempo, a amizade entre ela e Ronny cresce  a cada dia. Mesmo assim, Paul quer muito conversar com ela, e Selena  espera que esse seja o encontro que vem 
pedindo a Deus. Ser que ela vai aprender a confiar mais em Deus com relao ao que sente por  Paul... E por Ronny?




Ttulo original: Close Your Eyes
Traduo de Myrian Talitha Lins
Editora Betnia, 2000
Digitalizado por deisemat
Revisado por deisemat

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SEMEADORES DA PALAVRA e-books evanglicos
      
Srie Selena 4

Feche os Olhos

Robin Jones Gunn





Para
 Janet Kobobel Grant
Minha amiga, este  o vigsimo livro em que trabalhamos juntas.
Pespero que os leitores saibam algo que eu j sabia o tempo todo:
Sem a sua colaborao, no teria conseguido fazer nenhum deles.


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Captulo Um
      - Como  que voc consegue entender esse negcio? indagou Ronny Jenkins, atirando na lareira acesa um invlucro de chicletes que acabara de amassar.
      Ele se achava deitado no cho, e  sua frente estava um livro de fsica aberto e apoiado na forma de um V invertido.  volta do rapaz, havia dezenas de folhas 
de papel. 'Selena empurrou a pulseira esmaltada mais para o alto do brao e dirigiu um sorriso de incentivo para o colega.
      - Voc est quase conseguindo, disse. Tente de novo.
      Enquanto Ronny voltava a concentrar-se no dever de casa, Selena esticou as pernas e correu os olhos carinhosamente pelo aposento aconchegante. A majestosa 
manso vitoriana onde morava, que j pertencia  sua famlia havia mais de cinqenta anos, era bastante espaosa. A garota inclinou a cabea para trs e fitou Ronny, 
com seus olhos azul-acinzentados.
      - Quer dar uma parada e fazer um lanchinho? indagou.
      Antes que o rapaz respondesse, Tnia, a irm mais velha de Selena, entrou na sala tendo na mo o telefone sem fio.
      
      - Cad mame? perguntou ela.
      - Foi levar os meninos ao barbeiro, respondeu Selena, virando-se para a outra.
      Notou que Tnia tinha lgrimas nos olhos. Ou Selena muito se enganava ou ela estivera conversando com o namorado, Jeremy Mackenzie, como fazia todos os dias, 
quela mesma hora. Contudo, sempre que telefonava para ele, geralmente ela era toda sorriso e sussurros, e no lgrimas.
      - Tudo bem com voc? quis saber a garota em tom cauteloso.
      As duas nunca tinham sido amigas ntimas, e Selena reconhecia que tal pergunta poderia deixar Tnia meio constrangida, principalmente porque Ronny se achava 
presente.
      - Claro, replicou a irm. Estou tima. Vou fazer uns biscoitos, anunciou ela, saindo da sala e indo em direo  cozinha.
      - Agora tenho certeza de que ela est chateada, comentou Selena em voz baixa.
      Ronny estava rabiscando uma srie de nmeros numa folha de caderno e permaneceu com a cabea baixa.
      - Aconteceu alguma coisa entre ela e Jeremy, continuou Selena. Aposto que ele no vai vir.
      - Que foi? indagou o rapaz, erguendo os olhos.
      Seu cabelo louro-escuro, de corte reto, caiu-lhe nos olhos.
      - Voc falou comigo?
      - Deixe pra l, respondeu a garota.
      Segurando com uma das mos a saia longa e rodada, levantou-se e virou para ir  cozinha.
      - Volto j, disse.
      - T o.k.! exclamou ele.
      Tnia j enchera a mesa com os ingredientes que pegara na dispensa e at um pacote de espaguetes. Na beirada, estavam dois ovos, quase a ponto de cair. A um 
canto, havia um vidro de essncia de baunilha destampado, exalando um agradvel aroma sobre tudo, como se fosse uma bno. Quando Selena entrou, a irm estava untando 
uma assadeira com manteiga. A jovem no olhou para ela. Jogou o resto da manteiga numa tigela e se ps a bat-la vigorosamente com uma colher de pau.
      - Tudo bem com voc? indagou Selena de novo.
      - Claro que est! retrucou Tnia. S porque Jeremy no vai vier nesse final de semana, como havamos planejado, isso no significa que minha vida vai parar. 
Tenho muita coisa pra fazer. Muita mesmo.
      - Por que ele no vai vir?
      - No tem dinheiro. Tem de estudar. Est fazendo as provas IIo ir. l-scolha a desculpa que voc quiser.
      Selena sentou-se num tamborete, sentindo o corao apertar. Nas ltimas semanas, Jeremy e Tnia haviam feito muitos planos para essa ocasio em que ele viria 
de San Diego para visit-la. E nesse perodo, Selena tambm acalentara alguns desejos. Jeremy tinha um irmo, Paul, que a garota ficara conhecendo cinco meses atrs, 
no aeroporto de Londres. Nesses meses, ela o vira na cidade duas vezes e recebera duas cartas dele. Essa pequena correspondncia e as poucas conversas que tinham 
tido acabaram por criar em Selena uma poro de anseios, que ela guardava no corao como se este fosse uma caixinha de jias.
      Quando ficara sabendo que Jeremy era irmo de Paul, tivera certeza de que fatalmente seu caminho iria cruzar com o do rapaz. Afinal Jeremy programara ir a 
Portland para ver Tnia, e Selena entendeu que finalmente iria poder abrir sua caixinha de jias. Agora, porm, todas as possibilidades se frustravam.
      - Ento ele vai vir mais tarde, quando as aulas terminarem?
      - Vai tentar, disse Tnia, abrindo a porta do armrio e remexwndo dentro dele. Onde  que mame esconde as gotas de chocolate?
      - Na dispensa, explicou Selena. Na prateleira de cima, atrs das toalhas de papel.
      A jovem foi  dispensa  procura do chocolate, enquanto Selena procurava realimentar os sonhos, guardando-os dentro da sua caixinha.
      - Ah, mas ento no vai demorar muito, no, disse para a irm (e para si mesma).  s esperar mais algumas semanas. Alm disso, vindo em junho, ele pode ficar 
mais tempo. Se fosse no final de semana, o tempo iria passar assim , continuou ela, dando um estalido com os dedos para exemplificar o que dizia. Voc no acha 
melhor ele passar uma semana aqui?
      - , creio que sim. Mas isso s vai acontecer,  claro, se at l ele tiver conseguido ajuntar o dinheiro. Ele est precisando trocar os freios do carro, e 
a conta dele no banco est a zero.
      - Provavelmente por causa da conta de telefone, resmungou Selena.
      - O que  que voc quer dizer com isso? indagou Tnia girando nos calcanhares e tendo na mo uma toalha de papel.
      Selena devia ter se lembrado de que no deveria provocar Tnia quando esta se encontrava de mau humor. E a principal razo era que a jovem, com dezoito anos, 
no dava muito valor  lgica da garota, que s tinha dezesseis. Contudo resolveu dizer o que pensava.
      - Vocs esto constantemente telefonando um para o outro, explicou. Tenho certeza de que a conta deve ser alta. E nenhum dos dois tem muito dinheiro. Por que 
no telefonam menos e assim economizam um pouco?
      - Selena, retrucou Tnia, colocando a toalha de papel de volta na prateleira, voc no entende nada de nada sobre o amor.
      - ; voc tem razo. No entendo mesmo.
      Admirada ao ver que a irm concordara com ela, Tnia no retrucou, continuando a procurar as gotas de chocolate.
      - , insistiu Selena, acho que o amor leva a gente a tomar umas atitudes malucas, como por exemplo, gastar o dinheiro em telefonemas em vez de ajunt-lo para 
comprar uma passagem de avio.
      Tnia apertou os lbios como se estivesse reprimindo uma avalanche de palavras.
      - Foi s uma sugesto, murmurou Selena, erguendo as mos como que para se render.
      Voc no  a nica que perde com isso, Tnia, pensou Selena. Agora o meu plano de ver o Paul tambm foi por gua abaixo, n?!  claro, porm, que a garota 
nunca diria isso em voz alta para a irm.
      Um silncio pesado tomou conta do ambiente. Tnia enfiou a mo no fundo de um armrio suspenso, localizado acima da geladeira, e encontrou o que procurava.
      - Ah, timo! exclamou, pegando um grande pacote de gotas de chocolate, j meio amassado.
      - Parece que j tem uns dez anos que esse pacote est guardado a, comentou Selena.
      - E da? Ele est fechado. Eles no pem conservantes nesses negcios para que durem at o prximo sculo?
      A jovem abriu o pacote e derramou os docinhos sobre a mesa.
      - Vamos l, disse. Pegue um. Experimente.
      - Eu no, replicou Selena. Experimente voc.
      Naquele momento, a garota se deu conta de que ela e a irm haviam invertido os "papis". Durante a vida toda ela, Selena, sempre fora a mais audaciosa e atirada, 
embora fosse mais nova. Quando eram pequenas, Tnia se mostrava mais delicada e "certinha". S tomava leite com um canudinho, para no ficar com aquele detestvel 
"bigode branco" no lbio superior.
      Agora era Tnia que estava agindo como Selena, bagunando a cozinha toda para fazer biscoitos, enquanto Selena se mostrava toda cheia de cuidado. Engraado 
como ela fazia algo contra sua natureza s para aborrecer a irm.
      - Ah, que bobagem! exclamou Selena afinal, pegando um punhado de chocolates. Olhe, vou comer, concluiu, atirando alguns na boca.
      Nesse momento, Ronny entrou na cozinha.
      - O que est acontecendo? quis saber o rapaz.
      - Estou fazendo biscoitos, explicou Tnia. E Selena est "dando o contra", como sempre.
      - Estou no, defendeu-se a garota, com a voz meio embolada por causa dos chocolates na boca.
      Ronny j estava se acostumando a esse tipo de "guerra" entre as duas irms. Cerca de trs semanas atrs, ele passara a freqentar a casa de Selena. A princpio, 
ia s s sextas-feiras. Depois comeou a ir tambm s segundas e quartas; e sempre que no estava trabalhando, aparando algum gramado. Houve um dia em que ele at 
jantou com a famlia da colega, embora ela houvesse sado para encontrar-se com a amiga Amy Degrassi. Os pais de Selena incentivavam as visitas dos amigos dos filhos, 
e com isso Ronny se tornara quase um membro da famlia.
      - S quero saber uma coisa, principiou ele, sentando-se ao lado de Selena e empurrando os ovos da beirada da mesa. Quando  que esses biscoitos vo ficar prontos?
      - J, j, respondeu Tnia, medindo o acar e examinando a vasilha atentamente para verificar se estava tudo certo.
      - Ento, se precisar de algum para provar,  s falar comigo, concluiu o rapaz, levantando-se para voltar  sala. Tenho de terminar esse dever de casa hoje 
ainda.
      - Eu tambm, falou Selena.
      Em seguida, ela dirigiu  irm um olhar amigvel e concluiu:
      - E fique relembrando que dentro de mais algumas semanas ele vai vir.
      Espantada com o tom amvel da irm, Tnia deu uma resposta tambm amvel:
      - Ah,  mesmo. Obrigada pelo interesse.
      Ah, e eu tenho interesse sim, pensou Selena. Muito mais do que voc pensa, querida irm. Mais do que voc pensa. 
      
      Captulo Dois
      
      - Acho que j eliminei mais dois problemas. Agora s falta um, disse Ronny. Vou ficar aliviado quando as aulas acabarem.
      - Eu tambm, concordou Selena, dando um sorriso meio disfarado, lembrando do sonho de ver o Paul nas frias.
      O telefone tocou e da a pouco Tnia gritava da cozinha:
      -  a Amy, Selena.
      - Vou atender no escritrio, disse a garota para o colega. Se tiver alguma dificuldade, pode me chamar.
      Ergueu-se de um salto e correu para a saleta, o cmodo da velha manso que ela mais apreciava. Acomodou-se numa poltrona prxima da porta que dava para o quintal 
dos fundos, pegou o fone e apertou uma tecla.
      - Oi, Amy! exclamou, ouvindo o clique que revelava que Tnia desligara a outra extenso.
      - O Ronny est a? indagou a colega.
      - Humm, humm. Est l na sala terminando os problemas de fsica. Voc j fez os seus?
      - 'T brincando?  para sexta-feira ainda. E por que voc sempre muda de assunto quando falo em Ronny?
      - No estou mudando de assunto, no. Mas tenho uma notcia pra voc.
      - O qu?
      - Adivinha!
      - No sei. Desisto.
      - Voc desiste muito fcil, Amy.
      - Eu sei. Mas foi pra isso que voc ligou, pra me dizer que no sou persistente?
      - No fui eu quem ligou, foi voc.
      - Ah,  mesmo. Ento me diga logo sua notcia que eu vou dizer a minha.
      - Jeremy no vem mais.
      - O que significa que voc no vai ver o Paul, certo?
      - Certo.
      - Boba! exclamou Amy.
      - , eu sei, comentou Selena, soltando um suspiro. No devia ficar to obcecada com a idia de ver esse cara, mas...
      - Mas no consegue ficar sem revelar essa caracterstica das pessoas obsessivo-compulsivas, n? No vai ficar satisfeita enquanto no conseguir o que quer. 
Depois, quando conseguir, vai se sentir frustrada porque a fantasia acabou.
      - Por favor, "Dr." Degrassi, vamos parar com a sesso de psicanlise. No sou obsessivo-compulsiva, e voc sabe disso.
      - 'T bom, ento est envolvida numa fantasia.
      - Tambm no.
      - O que  ento? indagou Amy.
      - No sei.  s que o Paul ...
      - Inacessvel?
      - No necessariamente.
      - Posso lhe dizer o que penso? indagou Amy.
      Selena quase enxergava a amiga de olhos escuros, deitada sobre a cama coberta com uma colcha de retalhos, jogando para trs o longo cabelo castanho e anelado, 
pronta a "despejar" sobre ela suas pitadas de sabedoria.
      - Pelo que voc me contou sobre o Paul, eu diria: dessista desse sonho e passe a dar ateno ao Ronny. Voc sabe que ele gosta de voc. Paul no passa de um 
fantasma em sua vida. Ele  um misterioso desconhecido cuja estrada cruzou momentaneamente com a sua.  s isso. Os dois agora esto em rbitas diferentes; e por 
enquanto no vo caminhar juntos, no.
      Selena soltou uma gargalhada.
      - Onde  que voc arranjou essa psiquiatria de fico cientfica? No gosto quando voc fala nesse tom de filme de terror.
      - No  filme de terror, no.  muito potico, explicou Amy.
      - Parece que voc est dando as coordenadas para o nibus espacial, e no falando sobre gente. Paul  uma pessoa, Amy, no um fantasma.
      - O que estou querendo dizer, Selena,  que no adianta voc ficar desejando algo que no vai acontecer, quando bem a perto tem algo de muito valioso  sua 
espera.
      Selena no respondeu.
      - Est bem. Pra ser mais precisa - quando bem a na sala da sua casa tem algo de muito precioso  sua espera.
      - Eu e o Ronny somos apenas amigos, disse Selena. E voc sabe disso. Por que  que, de repente, voc resolveu comear a direcionar minha vida social, hein?
      - Porque tive uma grande idia, principiou Amy.  por isso que estou ligando pra voc. Ns podamos dar um jantar para alguns colegas da escola, como uma espcie 
de comemorao do fim do ano. Minha me disse que podemos fazer aqui em casa. Posso arranjar umas lagostas no restaurante do meu tio, assim a gente faz algo bem 
elegante.
      - Humm, legal, replicou Selena. E quando voc quer dar festinha?
      - No pensei ainda. Talvez sexta-feira.
      - E quem voc pretende convidar? quis saber Selena. O Drake?
      - , quero dizer, se nesta semana ele ficar sabendo que eu existo. E voc vai convidar o Ronny, n?
      Selena no respondeu imediatamente. Enrolou um dedo numa mecha de seu longo cabelo louro e notou que precisava lavar a cabea. Tinha aplicado muito creme relaxante 
pela manh e ele parecia um pouco grudento.
      - Selena, repetiu Amy, voc vai chamar o Ronny, n?
      - Talvez.
      - Ah, no! Voc j est de novo pensando naquele fantasma, no est?
      - Talvez, respondeu Selena, com certo riso na voz.
      O mais interessante em tudo que se relacionava com Paul era que quanto mais pensava nele, mais se convencia de que estava apaixonada pelo rapaz. No. Era mais 
que isso. Tinha certeza de que fora Deus quem aproximara os dois. Sabia que algo teria de acontecer entre eles, e quanto mais cedo, melhor.
      - 'T bom, Selena, interveio Amy. Tenta pr nessa sua cabecinha inteligente uma verdade muito potica: um Ronny na mo  melhor do que dois Pauis voando.
      - O.k., j que  isso que voc pensa, respondeu a garota.
      Ela sabia que o melhor a fazer naquele momento era ceder, Por fora, poderia concordar, para agradar a amiga. Contudo, por dentro, no deixaria ningum abrir 
a caixinha de sonhos que guardava escondida no corao.
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      Captulo Trs
      
      - Humm! At que no esto ruins, no, disse Selena, comendo um dos biscoitos daTnia. Quer um? Foi minha irm quem fez.
      Ela e Amy estavam lanchando juntas na hora do almoo. A colega empurrou para um lado sua bandeja, com algumas fritas j frias e um hambrguer que ela apenas 
comeara a comer. Com o movimento, o sanduche deslizou no prato, separando-se os trs componentes: as duas metades do po e a carne. Amy era meio "enjoada" para 
comer, isto , quando comia. Deu uma dentadinha no biscoito de Selena e j ia abrindo a boca para dar sua opinio sobre ele quando Drake apareceu por trs delas 
e disse:
      - Ele no vai te morder, no, Srta. Amy!
      O rapaz sentou-se entre as duas amigas e acomodou-se  mesa. O nome dele era Anton Francisco Drake. Todos tinham conhecimento disso, contudo todos, inclusive 
os professores, o tratavam por "Drake". Tinha cabelo castanho-escuro, que penteava todo para trs. E sempre que desejava dar nfase a algo que dizia, esticava o 
queixo para diante. Tendo mais de um metro e oitenta de altura, era um dos "astros" do time de basquete da escola. E no tinha a menor dificuldade para convencer 
fosse quem fosse daquilo que pensava. Naquele momento, estava de olho nos biscoitos de Selena. 
      - Quer um? indagou a garota.
      - Claro, respondeu.
      Com uma bocada s, engoliu o biscoito inteiro.
      - Foi voc quem fez? quis saber ele.
      - No, minha irm. Ontem  tarde ela estava meio chateada e resolveu fazer biscoitos para se distrair.
      - Meninas, falou Drake, vocs querem ir ao jogo do Blazers sexta-feira  noite? Tem uma turma de rapazes que vai, e se vocs quiserem, ainda podem comprar 
o ingresso.
      - Eu gostaria, replicou Amy. Gosto muito de basquete.
      Ronny, que se aproximara do grupo, bateu de leve no brao de Selena e perguntou:
      - Voc vai?
      - Acho que no, respondeu a garota. No estou muito a fim de gastar, no.
      - Voc quer ir, Ronny? indagou Drake.
      - Talvez, depois eu te falo.
      Drake se ps a pegar as fritas da bandeja de Amy e disse:
      - Quem precisar de carona  s falar comigo.
      - Eu preciso, foi logo dizendo Amy.
      Selena teve a impresso de que, pela primeira vez, Drake se dava conta de que a garota tinha interesse nele. O rapaz mudou um pouco a expresso do rosto, enquanto 
pegava mais algumas fritas.
      - Ento me explica como se chega  sua casa, pediu Drake. Acho que nunca fui l.
      - No, foi no, falou Amy com meiguice.
      A garota olhou para Selena e deu uma piscadela, sinalizando para a amiga que conseguira o que desejava.
      - Hoje mesmo fao um mapa pra voc, continuou ela, dirigindo-se ao rapaz. A que horas voc vai me pegar?
      Drake deu de ombros.
      - Por volta de 18:30h, creio, replicou ele.
      - timo! exclamou Amy.
      A sineta soou, indicando o final do intervalo, e os jovens que ainda estavam na cantina, seis ao todo, se levantaram e foram levar a bandeja ao balco. Saram 
caminhando, e Amy deu umjeito de ficar um pouco para trs com Selena. Pegou a amiga pelo brao.
      - Viu o que aconteceu? indagou ela para a amiga, com um brilho alegre nos olhos castanhos. O Drake finalmente me convidou para sair!
      - , disse Selena brincando, mas com um bom "empurrozinho" de sua parte.
      - Isso foi maravilhoso! Agora podemos comear a planejar o jantar para a outra sexta-feira. Estou vibrando!
      Nem era preciso que ela dissesse isso para Selena. Estava estampado em seu rosto. E enquanto caminhavam para classe, a colega continuou falando dos planos 
para o jantar que fariam.
      Como essa minha amiga tem facetas variadas! pensou Selena. H momentos em que Amy demonstrava uma maturidade e uma sabedoria incrveis. E nesses instantes 
se punha a "distribuir" conselhos, solicitados ou no.  que tinha duas irms mais velhas e aprendera com elas muitas lies de vida. Contudo, em outras ocasies, 
como agora, ela se revelava a caulinha da casa, sempre determinada a conseguir o que queria. E com sua meiguice, manipulava todo mundo com essa finalidade.
      As duas se sentaram lado a lado na sala de aula. Amy inclinou-se para Selena e disse:
      - Que tal se voc fosse ao jogo com o Ronny? Depois, ns quatro poderamos sair juntos. Vamos l, Selena!
      A garota abanou a cabea, fazendo as pontas aneladas do cabelo danar sobre os ombros.
      - No posso. J tenho um encontro marcado com o livro de educao cvica.
      - Tem no, retrucou Amy. J terminou aquele trabalho. Voc mesma me disse.
      - , mas preciso de uns pontos a mais, voc sabe disso.
      Amy girou os olhos para o alto, abanando a cabea.
      - Voc me irrita, sabia? Est me deixando nervosa. Bom, talvez o Mike e a Vicki queiram ir comigo e o Drake ao jogo.
      -  provvel! concordou Selena.
      - Ol, pessoal, disse o Prof. Rykert, falando alto para superar o zunzum da classe. Podem ir passando os trabalhos para a frente.
      Selena virou-se para Amy e fez um comentrio final acerca de sexta-feira.
      - Espero que voc e o Drake se divirtam bastante.
      A colega dirigiu-lhe um sorriso de agradecimento. Quando ela sorria daquele jeito, parecia uma garotinha, ligeiramente tmida, mas ainda assim com certa exuberncia. 
Selena gostava desse trao da personalidade da amiga. Era algo que as duas tinham em comum.
      Enquanto entregava seu trabalho, Selena teve de esforar-se para se concentrar na aula, em vez de deixar a mente e os olhos voltarem-se para o fundo da sala, 
onde Ronny estava sentado ao lado de Vicki Navarone.
      Esse negcio de relacionamento humano  muito complicado, pensou. A Tnia est l toda cheia de suspiros por causa do Jeremy. A Amy est com essa preocupao 
em conquistar as atenes do Drake. E qual  o meu problema? Minha mente se acha ligada em Paul. Ser que estou me iludindo ao pensar que algo possa acontecer entre 
ns? E por que ser que a Amy se convenceu de que o Ronny gosta de mim e no  apenas um simples amigo?
      Deu uma espiada para trs e viu o rapaz conversando animadamente com a Vicki, como dois velhos amigos.
      Est vendo? Ele tem amizade com uma poro de garotas. Eu sou apenas mais uma de suas amigas.  s isso.
      Ronny e Vicki tinham sado juntos uma vez, mas parecia que depois no acontecera mais nada. Era outra prova de que o colega era apenas amigo das meninas, e 
s.
      - O.k., pessoal. Vamos orar para iniciar a aula.
      Para Selena, essa era uma das vantagens de se estudar numa escola particular crist. A maioria dos professores orava apenas no primeiro horrio. O Prof. Rykert, 
porm, fazia isso em todas as suas aulas. A garota gostava de ouvi-lo conversar com Deus. Era como se o Senhor estivesse presente bem ali, na sala, junto com a turma.
      Selena tambm formulou sua petio: que no ficasse com a mente to voltada para os rapazes. Depois pediu que conseguisse terminar o segundo ano com notas 
boas. Ultimamente o Wesley, seu irmo mais velho, vinha lhe passando muitos dados sobre algumas bolsas de estudo em faculdades. Ela possua inteligncia necessria 
para entrar em diversos tipos de cursos, contudo s comeara a pensar seriamente em faculdade nesse ltimo semestre.
      - Amm! disse o Prof. Rykert, encerrando a orao.
      Em seguida, erguendo um pouco mais a voz, ele fez uma comunicao  classe.
      - Este ano, para a nota da prova final, vocs tero um trabalho um pouco diferente. Faro um relatrio escrito sobre uma experincia pessoal e o apresentaro 
 classe na ltima semana de aula.
      Vai ser fcil, pensou Selena. Vou escrever sobre minha viagem  Inglaterra. Ou talvez possa escrever sobre a experincia de conviver com uma av idosa e falar 
da cirurgia que ela fez meses atrs.
      - Ento, continuou o professor, vai ser um trabalho em duplas, e eu vou indicar o parceiro de cada um.
      Amy e Selena se entreolharam. Como o Drake no fazia essa matria, talvez a Amy quisesse fazer dupla com Selena. Por uns instantes, a garota pensou tambm 
que seria muito interessante ser parceira do Ronny.
      - Primeiro, disse o Prof. Rykert, vou explicar a tarefa e depois direi com quem cada um de vocs ir trabalhar. Tenho aqui uma lista de organizaes de Portland 
que aceitam trabalho voluntrio. Cada dupla vai escolher uma delas. Por favor, deve ser uma dupla para cada organizao. No pode haver duas num mesmo local. Em 
seguida, vocs vo entrar em contato com a organizao, oferecendo trabalho voluntrio, os dois juntos, por um total de quatro horas, no mnimo. Por fim, vo redigir 
um relatrio e apresent-lo perante a classe.
      - Podemos escolher o colega de dupla? quis saber Amy.
      - No, eu vou designar. E por favor, nada de trocar de colegas. Essa folha que vou distribuir agora traz a lista das organizacoesa, as duplas e as informaes 
que precisam constar do relatrio. Mais alguma pergunta?
      - Que dia que  pra entregar? indagou Amy.
      - Vocs tm duas semanas para dar as quatro horas de servio, e os relatrios, tanto o escrito como o oral, so para a semana da prova final.
      Selena pegou a pilha de papis que lhe fora entregue pelo colega da frente e passou-a para a garota que estava sentada atrs dela. Uma das meninas que se achava 
numa das carteiras  frente soltou um gemido meio zombeteiro e disse:
      - Ah, Jonas, no! Qualquer um, menos o Jonas!
      - Muito obrigado! disse o rapaz. Pelo menos tenho carro e voc no. E se voc for boazinha, posso deixar que pague a gasolina.
      - Byron Davis! sussurrou Amy baixinho, de modo que s Selena escutasse.
      E foi com o rosto radiante que se aproximou mais dela.
      - Selena, disse, parece que todos os meus sonhos esto se realizando hoje!
      Byron, que se sentava duas fileiras  frente dela, era um tipo forte e calado, um aluno estudioso que s tirava notas altas. Fazendo dupla com ele, Amy sabia 
que os pontos estavam garantidos. Byron estava examinando a lista das organizaes e aparentemente ainda no havia procurado ver quem seria seu parceiro de dupla, 
ou talvez ainda no tivesse tido coragem de olhar. Pelo fato de ser tmido, ele dava a impresso de ter medo de relacionar-se com as garotas.
      Selena gostaria muito se Byron fosse seu parceiro. Na certa iriam tirar a nota mxima. Alm disso, ela no ficaria na incmoda posio de ser sempre a mais 
inteligente da dupla. Contudo, antes que virasse a pgina para ver a lista das duplas, ouviu Ronny cham-la.
      - Selena!
      Virou-se e viu o colega sorrindo e segurando a folha no ar.
      - Ns dois estamos juntos, disse ele. Jensen e Jenkins*. Colega, ns vamos "arrebentar" nessa prova final!
      ___________________
      * Nos Estados Unidos, a chamada escolar segue a ordem alfabtica do sobrenome dos alunos, e no do primeiro nome. Da o fato de o nome Ronny Jenkins ser prximo 
ao de Selena Jensen. (N. da T.)
      
      A garota levantou o polegar, dando um sinal de "tudo bem" e voltou-se para a frente. Notou que Amy a fitava, dirigindo-lhe um olhar expressivo. Amy ergueu 
uma das sobrancelhas e sorriu timidamente para Selena, dizendo o nome do rapaz apenas com os lbios: "Ronny!"
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      Captulo Quatro
      
      Selena desviou os olhos de Amy e se ps a examinar as folhas que havia recebido. No resto da aula, eles estudaram um captulo do livro da matria. Assim que 
soou a sineta, ela guardou seus objetos na mochila e levantou-se para sair. Nesse momento, o professor chamou a ela e ao Ronny, pedindo que os dois fossem  frente.
      Eles se aproximaram da mesa e ficaram parados perto dele. O professor aguardou que os outros alunos sassem da sala antes de comear a falar.
      - Vocs devem ter observado, principiou ele, que formei as duplas seguindo a ordem alfabtica. Cheguei a pensar em alterar isso para que voc, e aqui ele apontou 
para Selena, fizesse dupla comTre.
      A garota teve uma contrao involuntria no rosto, mas desejou que ningum tivesse notado. Tre Nuygen era um aluno estrangeiro que fora transferido para o 
Colgio Royal no meio do semestre. Era um rapaz tmido demais ou ento no falava bem a lngua, pois no se adaptara ali. Amy dissera que ele era do Camboja e chegara 
aos Estados Unidos apenas alguns meses atrs. Outro colega informara que ele fora expulso da escola pblica e que o Royal fora o nico colgio que o aceitara. Fosse 
como fosse, Tre era um parceiro que ningum queria. Vicki terminara fazendo dupla com ele.
      - Eu queria perguntar uma coisa a vocs, disse o professor. Vocs se importariam de fazer um grupo de quatro, isto , junto com a Vicki e o Tre?
      - Claro que no, disse logo Ronny, dando de ombros num gesto de indiferena.
      - Tambm no, concordou Selena. Pra mim, tudo bem.
      - Professor Rykert! chamou algum  porta.
      Era Vicki. Tinha rugas de preocupao na testa, entre os olhos verdes. A garota aprendera a tirar partido de sua popularidade e bela aparncia para obter o 
que desejava.
      - Entre, Vicki! replicou o professor. Estvamos falando sobre voc. Eu queria que voc e o Tre formassem um grupo de quatro, aqui com o Ronny e a Selena.
      - Ah, obrigada! exclamou a garota, correndo os olhos de forma graciosa pelos dois colegas. Assim me sinto bem melhor.
      - E eu quero sugerir-lhes uma organizao para trabalharem, continuou o Prof. Rykert. Gostaria que os quatro assumissem a Highland House.  ligada a uma misso 
que d assistncia  populao de rua e a algumas famlias de baixa renda. Vocs vo trabalhar com o Kids Klub, que funciona depois das aulas. Quem opera esse clube 
 o Ministrio Evangelstico Highland. Sabem onde fica?
      -  perto de meu servio, explicou Selena. Eu j tinha visto aquilo ali, mas no sabia o que era.
      - A principal meta do pessoal da Highland House  ajudar as pessoas a recomearem a vida. Eles tm uma pequena agncia de empregos e tambm do cursos de formao 
profissional. O Kids Klub  para os filhos de pessoas que trabalham fora. Muitas dessas crianas nem tm casa; e teriam de ficar perambulando pelas ruas. Outras 
moram em lugares perigosos e no podem permandecer sozinhas enquanto a me est no trabalho. Ento vo para a Highland. Saber Ronny.
      - Muitas, bem mais do que a gente imagina, explicou o professor.
      - Parece que vamos aprender bastante com esse trabalho, comentou Selena.
      - Isso  o que espero, continuou o Prof. Rykert, esfregando as mos e olhando os trs com uma expresso tranqilizadora. Ento estamos combinados. Ronny, voc 
fica encarregado de comunicar ao Tre o que dissemos aqui, o.k.?
      - 'T certo.
      - E se mais adiante vocs tiverem alguma dvida,  s me falar.
      - Obrigada, Prof. Rykert, disse Vicki.
      Em seguida, a garota se virou para o Ronny e dirigiu-lhe um olhar muito meigo, expressando sua gratido.
      - Assim me sinto muito melhor, disse.
      Selena sentiu algo fervilhar em seu interior. Por que tinha essa sensao? Menos de uma hora atrs ela no orara a Deus falando-lhe sobre os sentimentos que 
abrigava em relao ao Ronny? Por que ser que aquele olhar sedutor da Vicki para o rapaz a deixara com a idia de que precisava proteg-lo, ou de que deveria fazer 
o mesmo que a colega?
      Caminhou apressadamente para a classe seguinte, perguntando a Deus por que essas sensaes comeavam a perturb-la tanto. Sentia-se to imatura com isso! Essas 
situaes - a gozao de Amy e o cime que sentia de Vicki naquele momento - eram to estranhas para ela! Por que Deus estava lhe enviando tantas provas de uma vez 
s? Ser que ele queria ver se ela fora sincera quando fizera aquela orao?
      Acomodando-se na carteira para a aula seguinte, Selena pensou em Vicki e resolveu tentar ser justa. Se o Prof. Rykert a tivesse colocado em dupla com Tre, 
tambm quereria que ele os juntasse com outro grupo.
      Alm disso, recriminou-se, isso aqui no tem nada a ver com namoro ou amizade.  um trabalho da escola. E todos queremos tirar a nota mxima na prova final. 
 s isso. E  o que importa para mim no momento. E se esse teste em minhas emoes  uma espcie de prova final que o Senhor est me dando, Deus, quero tirar um 
10 nela tambm.
       tardinha, quando Selena estava saindo do trabalho, resolveu dar uma volta e passar pela Highland House a fim de dar uma espiada. E foi contando as quadras 
 medida que se aproximava do rio. Depois de rodar onze quarteires, avistou a velha manso. Numa das paredes dela, estava pintado um mural de cores brilhantes. 
Na frente da casa, havia vrias rvores, cedros, como que formando uma barreira entre ela e a rua movimentada. No gramado, uns dez ou doze garotos jogavam futebol. 
Havia tambm uma espaosa varanda onde duas garotas pulavam corda, e no porto de entrada, uma placa de formato oval com a identificao: Highland House. Embaixo 
do nome, em letras menores, lia-se o seguinte: "Um lugar seguro para se recomear a vida".
      Selena estacionou numa vaga prxima e notou que na varanda havia uma outra pessoa, talvez o diretor, batendo a corda para as meninas. O homem se encostou em 
uma das pilastras e se ps a contar, com voz grave e forte, enquanto uma das garotas saltava.
      Que ser que eles vo querer que ns quatro faamos aqui? Eu poderia bater corda para as meninas e contar, como aquele cara est fazendo. Ou pode ser que queiram 
que ajudemos os garotos a fazer o "dever de casa". Isso vai ser fcil.
      Sentiu vontade de descer do carro, entrar l e oferecer-se para comear a trabalhar imediatamente. Parecia que no momento havia ali apenas um adulto para atender 
a todas aquelas crianas. No poderia. Era tera-feira, e ela estava com uma poro de dever de casa. Provavelmente a me j pusera o jantar na mesa, e seus pais 
ficariam preocupados se ela no chegasse do trabalho na hora de costume. Dando uma ltima olhada para a manso de aspecto to alegre, a garota sussurrou:
      "Depois eu venho aqui."
      Nesse momento, viu, num dos lados da casa, uma longa fila de mendigos que iriam receber sopa na cozinha da casa. Eles distribuam a refeio diariamente, s 
18:30h. Um velho barbado e malvestido vinha caminhando pela calada, carregando s costas um colchonete enrolado. Parou e examinou uma lata de refrigerante cada 
no cho. Aparentemente ela estava vazia. O homem parou junto a um poste, alguns metros antes de chegar  fila. Em seu rosto, estampou-se uma expresso de desespero.
      Selena sentiu uma enorme pena dele. Sem pensar muito no que fazia, pegou um pacote de pes de canela do Mother Bear que estava levando para casa, saiu do carro 
e disse para o velho:
      - O senhor gosta de pozinho de canela?
      O homem ficou meio espantado com a pergunta dela e olhou para o saquinho que ela trazia na mo.
      - Foi feito hoje, explicou ela, estendendo-o para ele. Se o senhor quiser...
      Selena nunca havia oferecido nada para um mendigo. At aquele momento, o "mundo" das pessoas carentes era algo bem remoto para ela. Nesse instante, porm, 
por alguma razo, ela sentiu algo diferente. Compreendeu que deveria fazer o que pudesse para socorr-los. E parece que a quietude daquela noite primaveril mais 
a expectativa de vir a prestar servios naquela casa fortaleceram sua coragem. No estava correndo perigo ali, em conversar com o velho, pois havia um homem l na 
varanda. Se precisasse pedir socorro, ele estava perto.
      No entendia por que se sentia to feliz s de oferecer pes para o mendigo. Talvez aquilo lhe lembrasse o trabalho que realizara na Gr-Bretanha, alguns meses 
atrs. Ela e seus amigos tinham ido l e corajosamente haviam pregado o evangelho de Jesus na regio. Ou talvez fosse o frescor da brisa noturna que lhe recordava 
da narrativa do livro de Genesis, onde dizia que Deus caminhava com Ado e Eva na virao do dia. Fosse o que fosse, o certo  que, naquele momento, sentia Deus 
muito perto de si, interessado pelo problemas da humanidade. Era quase como se pudesse tocar nele.
      O velho maltrapilho estendeu o brao e pegou o pacote.
      - Obrigado! murmurou ele, virando-se de costas para a fila, para que os outros no vissem o que ele ganhara.
      - De nada! replicou Selena. Deus o abenoe!
      Ele no respondeu, mas enfiou a mo suja no saquinho para pegar um po.
      A garota virou-se e voltou para o carro. Deu uma espiada para a varanda e percebeu que as meninas haviam parado de pular corda. O homem que estava l achava-se 
meio escondido nas sombras e, ao que parecia, olhava para ela. Selena tinha uma sensao agradvel, mas, ao mesmo tempo, sentia-se um pouco incomodada. Estava feliz 
por ter dado ajuda a um necessitado. Todavia preocupava-se ao pensar que fizera to pouco por ele. Onde ser que aquele velho iria dormir? O que comeria pela manh?
      E enquanto rodava, ia pensando em sua vida. Chegaria em casa, sendo acolhida por uma famlia maravilhosa. Depois teria um jantar farto e afinal iria para uma 
cama quentinha. Aquele necessitado no dispunha de nada disso. Em seu interior, brotou uma determinao que foi s se fortalecendo a cada instante.
      Quero fazer mais. Quero aprender a viver para ti, Senhor, com vigor e coragem. Quero atuar neste mundo que tu criaste e causar nele um impacto positivo.
      Infelizmente, porm, seus pais tinham uma opinio diferente sobre a experincia que ela vivera naquela tarde.
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      Captulo Cinco
      
      - Entendo que voc tenha sentido que no corria perigo ali, disse o pai, pegando uma tigela de verduras  mesa. Mas aquela rea  muito perigosa, Selena. Voc 
no faz idia do que poderia ter lhe acontecido.
      -  mesmo, interveio Dilton, o irmo de oito anos, o cara podia estar com uma faca.
      - , concordou Kevin, de seis, ou uma metralhadora.
      - Ele no tinha nenhuma metralhadora, afirmou Selena, servindo-se de uma colherada de arroz.
      - Nunca se sabe, insistiu Dilton. Poderia estar dentro do colchonete dele.
      - Ou ento na perna da cala, ajuntou Kevin. Voc no devia ter conversado com um desconhecido, Selena, no , me?
      Sharon Jensen deu um sorriso terno para o filho, daqueles que as mes reservam para os caulas. Em seguida, virando-se para Selena, que era a mais nova das 
filhas, deu o mesmo sorriso, mas ao mesmo tempo franziu as sobrancelhas, o que era sinal de que estava preocupada.
      - Filha, disse ela, ns ficaramos mais tranqilos se voc no abordasse pessoas assim de novo, a no ser que estivesse com um colega ou amigo. Admiramos o 
seu interesse pelos necessitados. Alis, sempre admiramos. Mas voc precisa temper-lo com um pouco de bom senso. Assim vamos nos sentir melhor.
      - Mandei cham-los ontem, disse de repente V May, l do outro lado da mesa.
      Selena, assim como todos os outros membros da famlia, amavam muito a av. Havia dias em que a mente da senhora estava lcida como gua cristalina numa lagoa. 
Em outros, porm, como acontecera agora, ela se punha a dizer frases sem sentido, e toda a famlia se via envolta numa nuvem de preocupao. Algumas vezes eles tentavam 
participar desse mundo estranho de V May e procuravam responder ao que ela dizia. Em outras vezes, porm, simplesmente deixavam passar em branco.
      Nessa noite, ningum sabia ao certo o que fazer. Ficaram a olhar uns para os outros, esperando que algum tivesse alguma idia sobre qual seria a melhor atitude 
a tomar. A av parecia perfeitamente normal. Selena se indagou, como j fizera milhares de vezes, como era que a mente de uma pessoa podia desligar-se do presente 
assim to subitamente.
      A av olhou para seus familiares, sem compreender direito o silncio que de repente tomara conta de todos.
      - Entendo o que a senhora quer dizer, me, interveio a garota, voltando ao assunto interrompido. Mas aqui estamos ns, com toda esta comida e nesta casa grande, 
enquanto tem muita gente por a precisando de ajuda. No posso ficar fazendo de conta que esse tipo de situao no existe. E se posso socorrer essas pessoas, quero 
socorr-las.
      - E ns concordamos com isso, falou papai em tom srio. S queremos  que voc esteja sempre acompanhada de algum. Entendeu?
      A garota fez que sim.
      - No foi assim que Jesus agiu quando enviou os discpulos para pregarem? De dois em dois? indagou a me de Selena.  o mais sensato, filha.
      Selena acenou que sim outra vez.
      - , tem razo, disse. Concordo. Vou agir assim.
      Mais tarde, naquela noite, Selena se ps a escrever em seu dirio.
      "Por que ser que acabei fazendo tudo errado? Pensava que estava praticando um gesto maravilhoso quando dei os pes para o mendigo e, no entanto, causei um 
transtorno a meus pais. Como  que um ato pode ser errado e certo ao mesmo tempo? Ser que sou impulsiva demais?"
      Em seguida, ela ia comear a analisar uma outra questo. Queria pensar nas loucas sensaes que experimentava com relao ao seu sonho de rever Paul e no quanto 
se achava imatura por alimentar aquela obsesso por ele. Nesse momento, porm, Tnia chegou e pendurou a bolsa no encosto que estava junto  mesa.
      - Oi! disse Selena. Como foi o dia no trabalho?
      - Pssimo!
      Tnia tirou os sapatos e em seguida as meias de nilon.
      - Recebemos hoje o relatrio das vendas do ms passado e adivinha quem teve o pior desempenho?
      - Voc? indagou Selena. Mas quando voc fez aquela venda especial no "Dia dos Namorados", no ficou com o melhor promotora de vendas, ou algo assim?
      Selena no entendia muito bem os detalhes do emprego de Tnia. A irm trabalhava no balco de perfumes da loja Nordstrom. A garota nunca prestava muita ateno 
quando Tnia comentava detalhes do seu trabalho.
      - , Selena, respondeu a irm, com um tom de irritao, mas isso foi em fevereiro.*
      ___________________
      *Nos Estados Unidos, o dia dos namorados cai em fevereiro, j que  comemorado no dia de S. Valentino. Nessa data, as pessoas presenteiam todos os entes queridos, 
e no apenas o namorado(a), noivo(a), etc, (N.da T.)
      
      Selena sabia que se desse um palpite errado, a irm descontaria toda a sua irritao em cima dela. Felizmente, porm, Tnia viu que na mesa havia uma carta 
para ela e de imediato esqueceu a irm.
      A garota fingiu que estava com a ateno voltada para seu dirio mas, na verdade, continuava atenta  irm, que ainda se mostrava deprimida. Viu-a rasgar o 
envelope com a unha do polegar e comear a ler. Selena vira a carta ali, mas no procurara saber de quem era. Poderia ser de Jeremy, mas o rapaz costumava telefonar, 
e no escrever.
      Olhando por sobre o dirio, a garota notou que a expresso tristonha da irm foi mudando. Ela terminou a primeira pgina e virou para a segunda, e logo em 
seguida um sorriso comeou a formar-se em seu rosto. Seus lbios se moviam silenciosamente  medida que ia lendo.
      Nesse momento, Selena observou que Tnia tinha lbios finos. No havia dvida de que a jovem era linda. Na rua, as pessoas costumavam parar para olh-la. Selena 
j se acostumara com isso, pois acontecia desde que eram pequenas. O tempo todo ela sabia que seria sempre a "feiosa" que passaria despercebido, perto da beleza 
de Tnia.
      Entretanto Selena tinha conscincia de um fato: seus lbios eram perfeitos. E agora percebera que os de Tnia no eram. Selena tinha os lbios iguais aos da 
me, perfeitamente proporcionais, o superior e o inferior. E quando sorria, mostrando os dentes belamente enfileirados, aparecia uma covinha no rosto. Sentiu-se 
consolada ao constatar que seus lbios eram mais belos que os da irm.
      - No acredito! exclamou Tnia quase gritando, abanando a carta e olhando para Selena com expresso de assombro. Isso  maravilhoso!
      Em seguida, a moa levantou-se da cama onde se sentara e saiu correndo porta a fora.
      - Me! Pai! gritou ela, correndo descala escada abaixo.
      - Que foi? indagou Selena, mas j no havia ningum para responder.
      Um leve aroma de gardnia ficara no ar com a sada de Tnia. Selena entendeu que tinha uma deciso a tomar. Deveria descer a escada correndo para saber o que 
deixara sua irm to agitada? Ou deveria esperar que ela voltasse?
      A garota sentiu vir  tona um velho conflito. Ela e Tnia eram irms, e Selena achava que eram amigas tambm. Contudo nunca tinham sido muito unidas. Fora 
por isso que a jovem em vez de ficar no quarto e revelar a notcia a Selena em primeiro lugar, correra  procura dos pais.
      Certa vez, Tnia afirmara que as duas no eram muito unidas porque ela era filha adotiva. Se fossem irms de verdade, obviamente seria mais ligada a Selena. 
J esta achava que, se no eram muito amigas, era porque tinham personalidades bem diferentes.
      Pensando nisso, ela ps a caneta na boca e ficou a mord-la de leve. Chutou uma pilha de meias limpas que estavam ao lado da cama. Deu uma espiada no dirio 
e releu a ltima frase que escrevera. "Ser que sou impulsiva demais?"
      - 'T bom, resmungou consigo. Ento no vou ser impulsiva e correr l embaixo.  melhor eu esperar aqui e, quando ela voltar, vou me mostrar bem afvel e interessada 
para que ela me conte essa maravilhosa novidade.
      Bateu o caderno, fechando-o, e decidiu guardar as roupas. Ajuntou as meias, cada uma com seu par, e guardou-as na gaveta da cmoda. Em seguida, pendurou algumas 
peas limpas que estavam no encosto da cadeira. Depois resolveu at arrumar a mochila, retirando os papis velhos. Passava das 10:00h e Selena estava com muito sono. 
No dava para esperar mais. Aprontou-se para dormir e, enquanto guardava seus objetos, ficou pensando nas idias que lhe haviam ocorrido sobre o contedo da carta. 
A concluso a que chegou di que a carta devia ser de Jeremy, e ele dizia que viria visit-los. Tnia correra para dar a notcia aos pais, e naturalmente, em seguida, 
telefonara para o namorado. Portanto ela devia estar l embaixo agora, ao telefone, fazendo planos com ele. 
      Apagou a luz e puxou a coberta at o queixo. Ento comeou a pensar no que diria para o Paul, assim que se encontrassem.  que, se Jeremy estava para vir  
sua casa, certamente Paul viria tambm.
      
      
      
      
      
      
      
      
      Captulo Seis
      
      No dia seguinte, Selena acordou tarde e teve de se arrumar rapidamente. E quando saiu do quarto, Tnia ainda estava dormindo. Desceu a escada correndo e entrou 
na cozinha apressadamente.
      -        Que foi que aconteceu com a Tnia ontem  noite? O que era aquela carta? perguntou  me, que tirava vasilhas da lava-louas.
      A me de Selena olhou para o relgio e entregou  filha uma caixinha de suco e um biscoito de aveia.
      -         melhor voc comer no caminho. Quando voltar da aula, conversaremos sobre a carta.
      Selena detestava quando eles ficavam assim cheios de mistrios. Pendurando a mochila no ombro, enfiou o biscoito na boca e saiu depressa. Ao mesmo tempo, tentava 
abrir o orifcio da caixinha de suco com a ponta do canudinho.
      'T bom, vamos ver. Jeremy vai vir, mas eles no querem me dar todos os detalhes agora porque...
      A nica explicao que lhe ocorreu foi que no daria tempo, pois estava atrasada. Enfiou a mo na mochila e pegou a chave do fusca que ela e a me utilizavam. 
Durante os dezoito minutoos de percurso at a escola, foi pensando nas tarefas em que iria trabalhar. Teria uma semana cheia. Entrou na primeira vaga que viu e saiu 
correndo em direo ao escaninho. Ronny j estava emperando-a ali perto.
      - Ol! disse o rapaz. Quer ir ao Lotsa Tacos na hora do almoo? 
      - Claro, respondeu ela. J conversou com o Tre? 
      Ronny olhou-a como se no tivesse entendido a pergunta.
      - Sobre o trabalho na Highland House, explicou a garota.
      Ele abanou a cabea e disse:
      - No, mas ontem  noite liguei para l e j combinei tudo. Vamos ter de ir l duas vezes para dar as quatro horas de servio. 
      - Pra mim, tudo bem, disse Selena.
      - , achei que voc ia concordar. Vou conversar com o Ter hoje.
      - Sabe de uma coisa? Ontem, depois que sa do servio, passei Poe l...
      Antes que ela terminasse o que dizia, a sineta soou estridentemente no alto do corredor. Selena fez uma careta por causa do barulho e acenou para o colega, 
dizendo:
      - Na hora do almoo, te conto o resto.
      E  hora do almoo, ele chegou ao escaninho dela no momento preciso. No havia dvida de que Ronny tinha um certo encanto. Ficou um instante parado, com seu 
sorriso tpico, com a boca meio torta, olhando para Selena como se ela fosse a nica garota do mundo.
      - Que foi? indagou ela, passando por ele e fazendo a combinao do segredo do cadeado para abri-lo.
      - Est pronta? indagou ele.
      - Estou, replicou Selena, dando uma batida firme na portinhola do escaninho para fech-lo.
      - Ah, a propsito, podemos ir no seu carro?
      - Ah, ento  isso! exclamou a garota. Voc me convidou para almoar s para ganhar uma carona.
      - No foi a nica razo, no.
      - Vai querer que eu pague o lanche tambm?
      - No, respondeu o rapaz, pegando-a pelo brao e conduzindo-a  porta da sada. Recebi ontem; ento, desta vez, estou com dinheiro.
      - timo! disse Selena.
      Atravessaram o estacionamento em direo ao carro dela. Selena destrancou-o e sentou-se em seu lugar. Em seguida, estendeu o brao e abriu a porta do lado 
do passageiro.
      - Eu estava brincando, explicou ela. O melhor sistema para ns  mesmo este: "cada um paga o seu".
      - Isso  porque ns dois formamos uma tima dupla, comentou o rapaz, batendo de leve com a mo no painel do carro. Somos imbatveis!
      Selena riu das palhaadas dele.
      - E tenho o prazer de lhe informar que, na semana passada, pus meu pagamento todo na poupana, comentou ela. Estou guardando tudo que ganho.
      - Est guardando pra comprar o qu?
      - Boa pergunta! disse ela, arrancando o carro e saindo do estacionamento.
      A lanchonete Lotsa Tacos ficava apenas a trs quadras da escola.
      - Na verdade, no estou precisando de nada. Acho que estou guardando quase que por instinto. Papai sempre nos ensinou, desde pequenos, que temos de fazer poupana. 
Mas no sei para que estou ajuntando o dinheiro.
      Selena aproximou-se do sistema drive thru* da lanchonete. Ao parar o carro, bateu com fora no meio-fio, e Ronny observou:
      ___________________
      *Um sistema de comrcio pelo qual o cliente compra sem sair do carro. Ele pra o veculo junto a um guich onde faz o pedido. Em seguida, passa a outro guich, 
onde paga. Afinal, recebe a compra em um terceiro guich. (N. da T.)
      
      - J sei com que voc pode gastar seu dinheiro. Comprando pra-choques novos.
      - Eu preferiria comprar um carro, interps Selena. Sabia que foi a prpria Tnia que comprou o carro dela? Eu talvez precise ter o meu se este aqui pifar.
      Havia quatro carros  frente deles na fila, todos com alunos da escola.
      - Ento, o que voc acha que eles vo mandar a gente fazer? indagou Selena. Quero dizer, na Highland Ilouse?
      - Sei l. Talvez pintar o prdio. Ele j  bem velho.
      Selena aproximou o carro do primeiro guich
      - De fora, no parece muito velho, no, observou ela. Voc j sabe o que vai pedir?
      O rapaz inclinou-se na direo do guich e explicou o que queria. Selena pediu tacos* e uma caixinha de leite de 250ml, e logo em seguida passou ao guich 
seguinte.
      ___________________
      *Tacos uma comida tpica mexicana, constituda de uma espcie de panqueca, recheada com carne moda, alface picada, queijo picado ou ralado e outros ingredientes. 
(N. da T.)
      
      - Leite? questionou Ronny. Ningum toma leite com tacos.
      - Eu tomo, explicou Selena, pegando seu dinheiro no porta-luvas. Opa! Meu dinheiro no vai dar. Pode me emprestar $0,25 centavos?
      - Ah, ento, voc  uma daquelas, n? falou Ronny, gozando-a. Guarda o dinheiro todo na poupana e depois, quando precisa, recorre aos pobres amigos desprevenidos.
      Selena conduziu o carro para perto do segundo guich.
      - So s $0,25 centavos, cara. Do jeito que voc fala, parece que estou cometendo um crime.
      - O nico crime que voc est cometendo  tomar leite com tacos.
      - Acontece que gosto de leite.
      - Eu tambm, mas com flocos de cereal, com biscoitos e at com sanduche de peito de peru, mas no com tacos. Nunca tacos.
      - Espere s um instante, disse ela para o rapaz do caixa.
      Em seguida, virou-se para o colega e disse:
      - Vai me dar os 0,25 centavos ou no?
      - Pode guardar seu dinheiro. Eu pago tudo.
      -  Ronny, no precisa pagar tudo. S me empresta 0,25 centavos.
      - Com licena, disse o caixa, os dois pombinhos querem fazer o favor de pagar primeiro e depois puxar o carro para continuar a briga?
      - Pombinhos? exclamaram Selena e Ronny ao mesmo tempo.
      Eles se entreolharam e caram na risada. Selena arrancou o dinheiro da mo do amigo e pagou a conta toda com ele.
      - Pode ficar com o troco, disse ela e arrancou.
      - Ficar com o troco? berrou Ronny. Voc deixou um dlar de gorjeta pra ele!
      Quando Selena j ia comear a dar uma explicao sobre seu gesto impulsivo, Ronny saiu do carro e voltou ao guich. A garota ficou a olhar pelo retrovisor. 
Ronny pediu desculpas ao motorista do carro que parara atrs deles para pagar a compra Em seguida, apontou para Selena e, com muita gesticulao, se ps a argumentar 
com o rapaz do caixa.
      Selena parou no guich de receber o lanche e pegou o pacote com os pedidos deles. Nesse momento, Ronny voltou e sentou no banco do passageiro, agitando no 
ar uma nota de um dlar.
      - Ah, peguei! exclamou ele sorrindo, parecendo no estar nem um pouco aborrecido com a atitude dela.
      Selena entregou-lhe o saquinho com o alimento e saiu  rua, tomando a direo da escola.
      - Sabe de uma coisa, Ronny? Acho que sou muito perigosa, disse ela.
      - Sei disso! replicou o rapaz.
      Ela abanou a cabea.
      - No entendo o que est se passando comigo ultimamente. Estou sendo meio irresponsvel e agindo muito por impulso. Foi um erro meu deixar com ele um dinheiro 
que era seu. Me desculpe.
      Ela entrou no estacionamento da escola e logo achou uma vaga.
      - Tudo bem! exclamou o rapaz. Isso  tpico de voc, Selena.  um esprito livre, e gente assim faz maluquices de vez em quando. No h nada errado com isso. 
Por que fica se recrimindo? Eu no achei ruim.
      - Achou, sim. Se no, por que voc foi l buscar o dinheiro?
      - Porque sou muito mo fechada, explicou Ronny, abrindo o pacote.
      Ele pegou o lanche de Selena e colocou-o sobre a palma da mo berta, como se o estivesse servindo numa bandeja de prata.
      - Seu taco e leite, Srta. Jensen.
      - Mas sinto que estou mudando, Ronny, explicou Selena.
      - , a gente muda, disse ele.
      Selena desembrulhou seu lanche e perguntou:
      - Voc tambm j teve a sensao de no saber direito quem ?
      - Claro. Todo mundo, vez por outra, pensa isso.
      - Mas eu nunca tinha sentido isso antes.
      - Nunca? exclamou Ronny depois de engolir um pedao do sanduche.
      - Creio que no.
      O rapaz abanou a cabea e deu outra dentada no lanche.
      - No fica preocupada com isso, no, comentou. Comigo voc pode agir impulsivamente sempre que quiser. Vou continuar sendo seu amigo assim mesmo. Posso perder 
um ou dlares de vez em quando, mas continuarei sendo seu amigo.
      Selena sorriu e tomou um gole do seu leite.
      - Voc no quer mesmo ir ao jogo na sexta-feira? indagou Ronny, mudando de assunto e engolindo o ltimo pedao do sanduche.
      - No estou com muita vontade, no. Voc vai?
      - Estou pensando em ir. Mas seria bem mais divertido se voc fosse comigo, isto , conosco. Vai uma turma grande. Vamos l, Selena. Eu pago seu ingresso, se 
voc no quiser desfalcar sua conta na Sua.
      - Voc  um cara legal demais! comentou a garota.
      Ela estava gostando muito de ver que Ronny era bastante compreensivo com relao aos seus sentimentos confusos e desejava a companhia dela. Selena no se interessava 
muito por basquete, principalmente porque os ingressos eram bem caros. Contudo reconheceu que seria muito bom sair com o colega e ver como ficaria o relacionamento 
de Amy e Drake.
      - E a?
      - 'T bom; eu vou. E no precisa pagar meu ingresso, no. Estou com dinheiro, posso pagar.
      - Legal! exclamou o rapaz.
      Selena deu um sorriso e fez um gesto para Ronny, indicando que ele estava com um pedacinho de queijo no canto da boca. Ele era o nico cara da escola que ainda 
dizia "Legal!" As expresses que ele mais usava eram "Legal" e "Tudo bem!" Era uma companhia agradvel. Selena se deu conta ento de que havia entre eles uma boa 
e sincera amizade. Amy achava que Ronny estava gostando dela, mas ela mesma percebia que era s amizade. No era toda garota que podia ter um amigo tocompreensivo. 
A Amy no tinha. Era por isso que no via que ela e Ronny eram apenas colegas.
      
      
      
      
      
      
      
      Captulo Sete
      
      Na quinta-feira  tarde, Selena estava sentada na beirada da cama, olhando para a irm que tentava enfiar outro par de sapatos na mala e em seguida correr 
 cmoda para pegar suas jias.
      - Ainda no estou acreditando que voc vai para a Califrnia, comentou ela.
      Desde que Tnia recebera a misteriosa carta, na tera-feira, a jovem parecia estar andando nas nuvens. Em poucos dias, a vida dela mudara completamente. Amanh, 
ela e os pais iriam pegar um avio para Los Angeles, onde passariam o final de semana. E a razo era que a famlia de Jennifer, a melhor amiga de Tnia no segundo 
grau, se mudara para l. Fora ela quem escrevera - convidava Tnia para ir morar com eles.
      - Voc pegou meus brincos de prola emprestados? indagou a jovem, examinando atentamente sua caixa de jias, muito bem arrumada, que se encontrava na gaveta 
de cima da cmoda.
      - Como se eu gostasse deles! exclamou Selena, deitando-se de bruos. E se papai e mame no quiserem deixar voc se mudar para l? Se voc no conseguir transferncia 
para uma loja Nordstrom naquela rea?
      -  exatamente para isso que vamos l neste fim de semana, explicou Tnia, meio impaciente. Para verificar tudo isso. E agora, onde est minha pulseira dourada?
      - Voc j no colocou as jias na mala ontem  noite?
      Como um coelhinho arisco, a jovem correu de volta  mala, que se achava em cima da cama, e verificou o bolso dela.
      - Est certo. Devo estar ficando maluca, disse Tnia.
      - , mudar para Los Angeles assim  mesmo uma maluquice, interveio Selena.
      - No  Los Angeles, no. J lhe falei isso. Ela mora  em Carlsbad, que fica mais ou menos meia hora ao norte de San Diego.  que, indo por Los Angeles, a 
passagem fica mais barrata, e papai achou tambm que seria muito bom fazer a viagem de l para Carlsbad, descendo pelo litoral.
      - Quando  que eles vo ficar conhecendo o Jeremy? quis saber Selena.
      - Amanh  noite. Vamos jantar com os pais dele. J lhe contei que liguei para o agente hoje cedo?
      - Que agente?
      - O da agncia de modelos que a tia da sua amiga me apresentou.
      Selena quase caiu da cama.
      - Agncia de modelos? Voc disse que no queria ser modelo!
      - , mas depois pensei melhor. Se eu tiver mesmo a chance de seguir a carreira, creio que deveria pelo menos tentar, no acha?
      No havia dvida de que Tnia estava mesmo nas nuvens.
      - Ganharia bem mais dinheiro do que ganho agora, continuou ela. E alm disso, talvez seja um trabalho muito agradvel.
      - Agradvel? Nunca viu uma entrevista dessas modelos que tm de passar muita fome e trabalham quatorze horas por dia? Elas dizem que tm a sensao de que 
todo mundo as v como objetos e no como seres humanos. Como  que voc pode achar que esse trabalho  agradvel?
      - Espere a! Eu no vou para Paris nem Nova Iorque. Essa agncia  bem simples, e s vou aceitar se for para apresentar apenas roupas, e no mais. J conversei 
com papai e mame sobre isso. Eles acham que devo tentar realizar esse sonho e ver o que aontece.
      Selena voltou a sentar-se na cama, as pernas apoiadas  moda oriental, e cruzou os braos.
      - U, Tnia, e desde quando isso  o seu sonho? Depois que recebeu essa carta da Jennifer voc parece outra pessoa.
      Tnia interrompeu por uns instantes sua agitao frentica e olhou para a irm com expresso suave.
      - , pode ser que eu parea mesmo. Mas talvez fosse isso que eu estivesse esperando - uma oportunidade de sair de casa, fazer algo diferente e ter um relacionamento 
fantstico com um rapaz. Esse negcio de morar longe do Jeremy tem sido uma tortura para mim. Voc acha que devo abrir mo de tudo isso? Em troca de qu? De ficar 
aqui, onde no tenho amigos, nem futuro, nem vida?
      Selena sempre achara que um dia Tnia iria sair de casa, como os dois irmos mais velhos j haviam sado. S que ela no esperava que fosse desse jeito. As 
duas ficaram em silncio por uns cinco minutos. Tnia pegou um casaco preto, dobrou-o e redobrou-o duas vezes. Afinal deitou-se sobre a mala para fech-la. Em seguida, 
deu um passo para trs, tendo no rosto bonito uma expresso de satisfao.
      - Tnia, disse Selena, levantando-se e aproximando-se da irm. Gosto muito de voc e vou sentir sua falta. Espero que tudo d certo.
      E deu-lhe um abrao que a jovem recebeu com ar de surpresa.
      - Ai, Selena, disse ela. Deixa disso. Vamos passar fora s o final de semana. Ainda no estou de mudana, no.
      Selena teve vontade de empurrar a irm no cho, atrapalhar o cabelo dela e fazer-lhe ccegas at que ela comeasse a rir. Contudo essa brincadeira nunca dera 
certo quando eram crianas, e a garota tinha certeza de que no daria agora.
      - Ah, ento s quero dizer que estou muito feliz de que tudo isso esteja acontecendo com voc.
      - Obrigada, replicou Tnia.
      A jovem foi  mesinha de cabeceira e pegou a lista de tudo que teria de fazer para a viagem e examinou-a.
      - Ah, , murmurou para si mesma. Tenho de embrulhar presentes para os pais de Jennifer.
      Enquanto a irm tratava de fazer os embrulhos, Selena foi ao banheiro que ficava no corredor. Fechou a porta e trancou-a pondo-se a examinar sua imagem no 
espelho.
      - E se eu fosse bonita como a Tnia? cochichou ela para seu reflexo. Ser que quereria sair de casa para me tornar modelo. Ou ser que ela est indo atrs 
de Jeremy?
      Pegou o cabelo anelado e volumoso e afastou-o do rosto. Virou-se de lado, pondo-se a analisar seu perfil. Em seguida, virou-se de frente para o espelho e sorriu, 
fazendo aparecer as covinhas. Fitou os olhos azul-acinzentados e analisou cada trao: o nariz, o queixo, as sobrancelhas, as faces. Todos regulares, concluiu ela. 
Talvez as sardas que havia no nariz  que fossem demais. Por outro lado, para contrabalanar, tinha lbios perfeitos. Fez um biquinho, como se fosse dar um beijo. 
Imediatamente pensou que estava muito crescida para ficar olhando sua imagem dessa maneira. A maioria das garotas tinha esse tipo de atitude aos doze anos.
      Aos doze anos, porm, ela estava mais interessada em andar a cavalo e em escrever msicas; e no tinha muito tempo para se olhar no espelho. Aos quatorze, 
ainda estava brincando de virar cambalhotas com os irmos no quintal e criando coelhos para seu projeto do "Clube 4 S"*.
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      *Clube 4 S: uma organizao que rene jovens da zona rural, e incentiva o interesse deles em pecuria e agricultura. (N. da T.)
      
      Agora, com 16, pela primeira vez na vida, ela se dava conta de que j era quase adulta. E o que contribura muito para isso fora o fato de que sua famlia 
se mudara, de uma cidadezinha das montanhas da Califrnia, para Portland, que era uma cidade grande. Alm disso, fizera uma viagem  Europa, onde amadurecera bastante. 
Pelo menos quando estava l, sentira-se perfeitamente ajustada com os outros jovens que eram mais velhos que ela.
      Selena entendeu que estava para ficar sozinha, aps a partda da irm, que tinha 18 anos. E a nica coisa que desejava naquele instante era que pudesse voltar 
 sua infncia feliz. Para que toda essa preocupao de ter de estudar tanto para tirar notas altas? E por que iria perder a irm justamente agora que estavam comeando 
a se relacionar melhor? E para que ficar com aquele "fantasma" do Paul em sua vida?
      A garota soltou um suspiro profundo. No chegava a estar com vontade de chorar, mas seria muito bom se pudesse extravasar aquelas emoes fortes. Olhou-se 
longamente ao espelho e recordou-se de Paul, talvez por causa dos olhos. Os olhos do rapaz eram da mesma cor dos dela. Pelo menos fora isso que o comissrio de bordo 
havia dito ao v-los sentados lado a lado no uvio, quando vinham para Portland.
      Selena deu um puxo na gavetinha do armrio da pia e pegou sua escova de dentes. Ps um bocado de pasta nela e comeou a escovar os dentes vigorosamente, impulsionada 
pelas emoes.
      Agora que Tnia vai se mudar para San Diego, nunca mais vou ver Paul. Jeremy no ter motivo algum para vir aqui. Portanto no preciso mais achar que vou ver 
Paul. E alis, ele j deve ter me esquecido completamente.
      A espuma da pasta de dentes comeou a escorrer-lhe pelo canto da boca. Selena fez uma careta, como se fosse um monstro raivoso, e em seguida cuspiu.
      Amy tem razo. Tudo no passa de um sonho que eu mesma criei. Penso nele demais.
      Lavou a boca e chegou mais perto do espelho para examinar os dentes que brilhavam.
      Alm disso, sou muito nova pra ele. Sou impulsiva demais e... como foi que falei para o Ronny outro dia? Ah , sou muito perigosa para o Paul.
      Fez uma careta para seu reflexo no espelho. Inesperadamente, lembrou-se da ltima frase que Paul lhe dissera no aeroporto, quando se despediam perto do setor 
de recolhimento de bagagem. "No mude nunca, Selena."
      A garota continuou fitando sua imagem, contemplando os olhos que haviam adquirido a tonalidade de uma tranqila manh de inverno. Nesse momento, recordou com 
preciso algum detalhes com relao ao rapaz. O cheiro dele lhe lembrava o Natal em Pineville, a cidade onde morara antes. Reviu mentalmente seus olhos profundos, 
azul-acinzentados, seu bluso de couro e seu chapu  Indiana Jones. Recordou o modo como ele a abordara e lhe falara de forma to desinibida.
      Afinal, como Selena j fizera centenas de vezes, fechou os olhos e orou por ele.
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      Captulo Oito
      
      No dia seguinte,  noite, Selena estava sozinha em casa, tendo apenas a companhia de V May, que dormia em seu quarto. A garota pegara uma caixinha de passas 
e fora acomodar-se no balano da varanda, pondo-se a comer as frutinhas. Dali ouvia umas pombas arrulhando no telhado da casa em frente. O cu estava carregado de 
nuvens, e caa uma garoa fina e morna.
      Ela se sentiu muito s. Naquele exato momento, seus amigos Ronny, Amy e Drake estavam se dirigindo para o ginsio de esportes, onde iriam assistir ao jogo 
do Blazers. Selena tivera de recusar o convite de ir com eles, porque os pais haviam viajado com Tnia. Algum precisava ficar em casa e cuidar de V May. A garota 
era a nica que poderia fazer isso.
       tarde, Cody, um de seus irmos mais velhos, tinha vindo buscar os menores para passarem o final de semana na casa dele, no estado de Washington, a uma hora 
dali. Cody e Katrina, sua esposa, gostavam muito quando Kevin e Dilton iam para sua "fazenda", pois faziam companhia para o Tyler, o filhinho deles que tinha trs 
anos. O garotinho adorava os pequenos tios.
      Uma hora atrs, Amy ligara para Selena quase em pnico, pedindo sua opinio a respeito da roupa que deveria usar para ir ao jogo. Contudo, assim que comeou 
a descrever a roupa com que estava vestida, de repente, deu um gritinho e desligou o telefone antes mesmo que a garota lhe desse alguma sugesto. Drake chegara mais 
cedo do que o combinado.
      Selena tentou chamar V May para darem uma volta no quarteiro, dizendo-lhe que o exerccio lhe faria bem. Algum tempo antes, a av havia quebrado o p e, 
no dia que tirara o gesso, o mdico dissera que seria bom se fizesse caminhadas leves. Nessa noite, porm, a senhora estava cansada e no quis sair. Preferira ficar 
assistindo  televiso em seu quarto. A neta lhe fizera companhia durante alguns minutos, vendo um programa de competio entre telespectadores. Entretanto, cinco 
minutos depois, V May se pusera a cochilar. Selena a cobrira com um cobertor e desligara a televiso que, alis, estava com volume muito alto. Com o silncio, V 
May acordara e, bastante irritada, dissera a Selena para "ligar a televiso de novo".
      A garota obedecera  querida av e, em seguida, sara do quarto pisando de leve. Calara seus chinelos felpudos e descera para o andar de baixo. Afinal fora 
para a varanda onde estava agora, comendo passas e pensando em Paul.
      Pai, o Senhor j deve estar cansado de me ouvir orando por esse cara, no est? No sei o que . S quero que Paul ande no caminho certo contigo. Quando o 
conheci, parecia que ele estava se afastando de ti. Por favor, mantenha-o perto de teu corao, Pai. Sei que  ele quem tem de decidir se vai te obedecer ou andar 
em seus prprios caminhos. Eu te peo, Senhor, que tua mo esteja sempre sobre ele.
      O silncio era profundo, algo muito estranho para aquela casa. Selena pensou nas inmeras mudanas que haviam ocorrido na famlia. Os dois irmos mais velhos 
j tinham sado de casa. Agora, se Tnia tambm sasse, ela seria a filha mais velha. E j comeava a sentir o peso de ser a mais "responsvel". Tivera de abrir 
mo do jogo de basquete para ficar com V May. De certo modo, Selena compreendia o fato de sua irm estar desejosa de viver a prpria vida, organizar ela mesma suas 
atividades.
      Bateu a caixinha para soltar a ltima passa que nela ficara agarrada. Levantou-se e saiu arrastando o chinelo. Entrou em casa e foi para o escritrio, o cmodo 
de que mais gostava. Uma das paredes estava coberta de alto a baixo com livros velhos que a av fora comprando no decorrer dos anos. Alguns eram escritos em dinamarqus, 
a lngua de origem de V May. Selena acendeu a luz do abajur que ficava ao lado da poltrona estofada e correu os olhos pelo aposento. Os livros, dezenas de volumes, 
pareciam cham-la silenciosamente, convidando-a a que mergulhasse em suas pginas e passasse algumas horas ali com eles.
      Repassou mentalmente todos os trabalhos escolares que precisaria fazer nesse final de semana. Sendo uma garota determinada, Selena rejeitou o "convite" dos 
livros e ligou o computador que estava sobre a escrivaninha do pai. Ouvindo os suaves rudos caractersticos do "crebro eletrnico" carregando, sentiu fortalecer-se 
mais sua deciso de estudar. O primeiro trabalho que teria de fazer era uma redao de dez pginas. Resolveu que iria fazer quinze, pois precisava obter todos os 
pontos possveis.
      Em seguida, ps-se a redigir rapidamente e trabalhou durante quase uma hora. A certa altura, escutou passos leves no assoalho de madeira da sala. Calculou 
que a av tivesse acordado e descido para comer algo. Qual no foi sua surpresa quando viu Wesley, seu irmo mais velho, aparecer  porta do escritrio.
      - Ei, o que est fazendo aqui? indagou.
      O irmo aproximou-se e deu-lhe um beijo no alto da cabea.
      - Vim lhe fazer companhia para que no ficasse sozinha durante todo o final de semana, explicou ele.
      O rapaz estudava na Universidade de Oregon, no campus de Corvallis, que ficava a umas duas horas de Portland. Selena nunca confessaria que gostava mais de 
um dos irmos do que dos outros. L no fundo, porm, era mais chegada ao Wesley do que aos demais.
      - Onde est V May? quis saber ele.
      - Dormindo, acho. Mais ou menos uma hora atrs ela estava cochilando. Depois disso, no voltei mais l.
      A garota pressionou mais algumas teclas do computador, encerrando o trabalho.
      - Terminou tudo? indagou Wesley.
      - No, mas no agento ficar mais do que uma hora falando dos "benefcios da Revoluo Industrial", numa noite de sexta-feira. Se eu insistir, vou comear 
a entrar em depresso.
      - Por que no saiu com os amigos hoje? perguntou Wesley. Antes mesmo de terminar a frase, porm, o prprio rapaz compreendeu qual era a resposta e disse:
      - Bom, mas agora estou aqui. Posso ficar de olho em V May. Voc pode sair e se divertir um pouco. No  muito tarde, no.
      - Meus amigos foram a um jogo do Blazers.
      - Humm, voc est andando com uma turma riquinha agora, hein?
      - Que nada! Eles compram os ingressos mais baratos. E voc? No tem nenhuma garota bonita para lhe fazer companhia em plena noite de sexta-feira?
      Wesley encostou o ombro a uma estante e correu os dedos pelo cabelo castanho e ondulado. Um leve sorriso surgiu-lhe no rosto, suavizando as linhas do queixo 
onde a barba despontava. O rapaz se parecia demais com o pai, ou pelo menos era como o pai deveria ter sido quando jovem, antes de comear a ficar calvo
      - Esta semana, no, explicou ele, com ar indiferente.
      Selena sabia que, por ocasio do Dia de Ao de Graas, seu irmo estivera interessado em uma garota, s que, ao que parece, ela no correspondera. E de l 
para c, ele no falara em mais ningum.
      - Quer fazer alguma coisa? indagou o rapaz.
      - O que, por exemplo?
      - Locar uma fita, ou sair pra comer algo.
      - Claro, mas ser que podemos deixar V May sozinha?
      - Ah,  mesmo, concordou Wesley. Esqueci que estamos s ns aqui com ela. Puxa, acho que nunca tinha visto esta casa to silenciosa!
      -  estranho, n? comentou Selena. Na poca em que V May fez a cirurgia e fiquei sozinha com ela, foi pior ainda. Esta casa vazia chega a dar medo.
      - Voc j deu uma olhada na geladeira? Tem comida gostosa a?
      - Achei umas passas, respondeu a garota.
      Ela sabia que ele detestava passas, ameixa seca e figo. Abominava qualquer fruta "enrugadinha". Wesley fez uma careta.
      - Vamos l ver a V May. Talvez ela esteja acordada e queira ir conosco comer uma pizza.
      - Duvido, Wesley, disse Selena dando risada. Esqueceu que ela  uma senhora idosa e no uma jovem estudante?
      - O problema dela  esse, prosseguiu o rapaz, subindo a escada  frente da irm. Todo mundo a trata como se ela no fosse capaz de fazer nada sozinha. V May 
 uma mulher cheia de energia. Quando eu tinha 14 anos, ela subiu na casa da rvore comigo. Lembra disso? E fizemos um piquenique l. S eu e ela.
      - 'T bom, Wesley, disse Selena abaixando a voz, mas isso foi o qu? Oito ou nove anos atrs. De l pra c, muita coisa j aconteceu.
      - Cada pessoa tem a idade que pensa que tem, insistiu o rapaz.
      Ele bateu de leve  porta do quarto da av e em seguida girou a maaneta. V May se achava de p perto da janela, olhando l para fora. Vestia um robe com 
estampa de flores. A televiso estava desligada, mas, do rdio, vinha o som suave de uma msica de jazz.
      - No falei que ela estava acordada? disse Wesley. Como est minha avozinha querida? indagou ele erguendo a voz.
      A senhora se virou, assustando-se com a chegada deles. Tinha nos olhos uma expresso tensa e fitou um ponto atrs dos netos. Selena automaticamente virou-se 
para ver se havia algum ali. Era claro que no havia ningum. V May estava tendo uma das suas crises de memria.
      - Pois no? disse ela em tom cordial.
      Parecia no ter a mnima noo de quem eram Wesley e Selena.
      - Eu ... principiou o rapaz. Isto , ns resolvemos vir ver como a senhora est.
      Selena teve a impresso de que ele teve um ligeiro choque com a estranha recepo da querida av. Lembrou-se, ento, de que ele no vinha muito em casa. Provavelmente 
no vira a av assim muitas vezes.
      - Ah, sim, replicou V May em tom frio. Estou muito bem.
      - A senhora quer alguma coisa? perguntou Selena.
      - Ao que parece, ainda no trouxeram minha bagagem, disse ela. Se no for muito incmodo, vocs poderiam verificar isso pra mim?
      Wesley virou-se para Selena. Ela dirigiu ao irmo um olhar de compreenso e disse:
      - Claro, vamos verificar. Mais alguma coisa?
      - No, obrigada!
      V May pegou sua bolsa, que estava sobre uma banqueta forrada de um pano bordado.
      - Vou lhes dar uma gorjeta agora, e depois, quando trouxerem minhas malas, dou outra.
      Wesley empalideceu.
      -  muita bondade sua, mas no precisa, no, falou Selena imediatamente. Isso  por conta da casa.
      - Ah! exclamou ela com uma expresso agradvel. Ento, obrigada!
      Selena e Wesley saram do quarto, fechando a porta e desceram as escadas em silncio.
      - Ser que devemos levar umas malas l para cima? indagou Weslwy.
      - Precisa no. Se levarmos,  capaz de ela perguntar que malas so essas. Parece que ela tem essas idias desencontradas e no faz conexo nenhuma entre elas, 
explicou a garota. , ento no poderemos sair.
      - Claro, concordou o rapaz. Mas puxa,  to esquisito ver a vov desse jeito...
      - , eu sei.
      Entraram na cozinha e Wesley acendeu a luz. A lmpada brilhou por um instante, mas logo em seguida se apagou. Estava queimada.
      - Uhh! exclamou o rapaz. Onde  que papai guarda as lmpadas? Na oficina?
      - Acho que  no poro, explicou Selena.
      O rapaz desceu para procurar a lmpada e Selena foi com ele. Voltaram, e ele a trocou rapidamente. Num gesto habitual, Selena pegou o objeto e sacudiu-o, escutando 
o barulhinho dos fios soltos l dentro. Ia atirar a lmpada na cesta de lixo, mas ocorreu-lhe um pensamento. Devia ser muito doloroso para V May ter idias desconexas, 
que no se ligavam umas nas outras. Sua mente era como uma lmpada queimada. Durante muitos anos, sempre que ela a "ligava" ou "desligava", as idias tinham uma 
conexo perfeita. Um dia, de repente... puf! Ela tentou "ligar", mas no houve conexo. Selena estremeceu ao pensar que algum dia V May iria morrer.
      A mesma sensao ocorria com relao a Tnia. Durante toda a vida, compartilhara um quarto com a irm. Agora, porm, era muito possvel que essa situao se 
alterasse.
      Aproveitando um momento em que Wesley no olhava em sua direo, Selena pegou a lmpada queimada e colocou-a numa gaveta, em vez de jog-la fora. Mais tarde, 
quando o irmo estivesse por perto, iria busc-la e guard-la no quarto.
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      Captulo Nove
      
      Aos sbados, Selena trabalhava na confeitaria Mother Bear de 8:00h s 17:00h. No seu horrio de almoo, Amy apareceu por l e as duas foram se sentar na saleta 
dos fundos para conversar. Ficaram comendo pedacinhos de po de canela que haviam se quebrado. E comeram tanto que acabaram ficando enjoadas do pozinho doce. Amy 
falou sem parar, contando a respeito do jogo e sobre Drake. Ao que parecia, ele fizera tudo certinho, agindo como um perfeito cavalheiro. Abrira a porta do carro 
para ela, comprara-lhe um refrigerante, dera-lhe ateno o tempo todo e a levara em casa, conduzindo-a at a porta. A garota estava radiante.
      - J falei com ele sobre nosso plano de dar um jantar para ele e Ronny, e ele adorou a idia.
      - E j conversou com o Ronny sobre isso? indagou Selena.
      - Claro. Ele estava sentado do nosso lado.
      - Amy!
      - O qu?
      Selena ia comentar algo, mas afinal achou que era melhor concordar com os planos da colega e no tentar mudar nada.
      - Nada, replicou, pegando um guardanapo e limpando os dedos sujos de calda de acar. Continue. O que est planejando fazer?
      - O.k., falou Amy, com os olhos brilhantes. Vai ser sbado que vem, na minha casa. Vamos fazer lagosta, batata assada e...que mais?
      - Uma salada, ajuntou Selena.
      -- , uma "Csar", resolveu Amy. E uma sobremesa super deliciosa. Tem de ser de chocolate, claro.
      - E quando  que vamos preparar tudo isso? quis saber Selena.
      - A lagosta ns teremos de cozinhar quase na hora. J lhe disse que meu tio prometeu me dar quatro, no disse? Normalmente ele no serve lagosta no restaurante 
dele, mas pode comprar com desconto. Ento vai nos ceder de graa.
      - Que bondade dele!
      - Talvez ele possa nos dar tambm uma musse de chocolate, comentou Amy. J perguntei ao Drake e ele disse que gosta de musse.
      - Tenho a impresso de que Drake vai gostar de qualquer comida que fizermos, observou Selena.
      Amy fitou-a com uma certa estranheza e a garota logo acrescentou:
      - Ronny tambm. J viu algum rapaz que no gosta de comer?
      - Tenho um primo que odeia massas, disse Amy. E em nossa famlia isso  o mesmo que dizer: "No gosto de respirar".
      Selena deu uma espiada para o relgio que havia acima da pia.
      - Tenho de voltar para o servio, disse. Se voc quiser que eu leve alguma coisa,  s me falar, est bem? E vai ser no prximo sbado, n?
      - Isso. Marquei para as 19:00h. Assim vamos ter bastante tempo para preparar tudo.
      - Humm, parece que vai ser legal! comentou Selena.
      A garota colocou o avental para trabalhar e Amy foi saindo pela porta dos fundos.
      - Tchau! gritou Selena para a amiga.
      A seguir, encaminhou-se para o balco onde Jody, sua colega ruiva, atendia a uma longa fila.
      - Voc devia ter me chamado, falou Selena. No percebi que a loja estava cheia.
      - Chegou todo mundo mais ou menos ao mesmo tempo, explicou Jody. Basta cair uma chuvinha e o pessoal quer tomar caf.
      Jody estava manipulando a mquina de caf expresso e Selena foi para a caixa registradora, pondo-se a receber.
      No momento seguinte, quando ergueu a cabea, viu mais dois clientes entrando: Ronny e Drake. Sorriu para os colegas e continuou com seu servio na registradora, 
enquanto Jody, habilidosamente, ia fazendo os capuccinos. Quando chegou a vez de atender aos dois rapazes, ela notou que estavam com o cabelo molhado.
      - Acabaram de tomar banho? indagou.
      - Foi o contrrio, explicou Drake. O banho caiu em ns.
      - Ele estava me ajudando a aparar o gramado de alguns clientes regulares de sbado, interveio Ronny. Numa determinada casa, tivemos de parar no meio, pois 
comeou a chover forte. Eu, como o executivo em comando, decidi que era hora de sair para almoar.
      E o rapaz deu seu sorriso caracterstico, que deixava seu rosto radiante. Mais uma vez, Selena percebeu o quanto a atitude dele era amistosa. Ela se sentia 
bem  vontade quando estava com ele. Fora mais ou menos essa a sensao que tivera na noite anterior, quando estava sozinha com V May, e Wesley aparecera para lhe 
fazer companhia.
      - O Ronny me falou que aqui se come o melhor donut desta cidade, comentou Drake, correndo a mo pelo cabelo e ajeitando alguns fios que estavam fora de lugar.
      - Na verdade, no trabalhamos com donuts, no; s com pezinhos de canela. E D. Amlia, a proprietria, est pensando em instalar uma daquelas mquinas de 
sorvete instantneo.
      - Ento vamos querer dois pezinhos de canela, pediu Drake.
      - Com muita calda de acar, acrescentou Ronny. A gente sempre tem de lembrar a Selena para colocar bastante calda.
      - So seus amigos, Selena? quis saber Jody.
      - Ah, Jody, este aqui  o Drake e este  o Ronny, falou Selena, apresentando os colegas. E... sim. Se for obrigada a dizer que so meus amigos, digo.
      - Prazer em conhec-los, falou Jody. Vo querer tomar alguma coisa?
      - Um capuccino, disse Drake.
      Ronny pediu duas embalagens de leite e Selena logo brincou:
      - Leite a gente toma  com tacos.
      Ronny entendeu a brincadeira, o que alegrou a garota.
      - No, no, replicou ele. Leite combina com pozinho de canela e no com tacos.  isso que voc precisa entender.
      - Servem tacos aqui tambm? indagou Drake.
      - No, explicou Selena.  s uma piadinha nossa.
      Drake olhou para o colega que ainda sorria e em seguida virou-se para Selena. A garota compreendeu que acabara dando a entender algo que no queria. Geralmente 
quem tem piadinhas ou brincadeiras em comum so os casais de namorados. Drake ficou a fitar atentamente a um e outro, como que tentando descobrir qual era o tipo 
de relacionamento que eles tinham. Nesse momento, sem saber bem por que, Selena se sentiu um pouco incomodada. Pegou os pezinhos para eles e os dois ajuntaram o 
dinheiro numa quantia s e lhe entregaram. 
      - Sabe o que ? principiou ela, dirigindo-se ao Drake. Quando como tacos, gosto de tomar leite, e o Ronny acha isso estranho.
      - Tambm gosto de tacos com leite, explicou Drake.
      - Est vendo? disse Selena para Ronny. 
      Ela registrou o dinheiro e sua pulseira de metal tiniu ao bater na caixa.
      - Ento  isso que vamos ter no jantar na casa da Amy sbado que vem? indagou o rapaz. Tacos com leite?
      - No. Alis, ela acabou de sair daqui, disse Selena. Vai ficar sentida quando souber que vocs estiveram na loja pouco depois que ela saiu. Mas ela no lhes 
disse o que vamos ter no jantar?
      Os dois abanaram a cabea e se puseram a comer o pozinho doce.
      - Ento tambm no vou dizer, no, respondeu a garota. Vai ser surpresa.
      Um novo cliente chegou ao balco e os dois rapazes se afastaram para um lado, comendo seu lanche. A garota atendeu mais duas pessoas, as ltimas da fila, e 
Ronny aproximou-se da caixa.
      - Ns achamos muito legal isso que voc e a Amy esto fazendo, disse ele.
      - , mas vocs ainda no sabem se cozinhamos bem ou no, brincou Selena. Esperem para expressar sua opinio depois que jantarem, se sobreviverem.
      - Pois eu estou disposto a correr o risco, observou Drake, fitando-a com um sorriso muito cordial.
      Selena se sentiu um pouco estranha com o olhar dele. O rapaz contrastava bastante com Ronny. Era moreno, mais alto, tinha feies perfeitas e ombros largos. 
Seu queixo era firme e ele o projetava para diante, ao sorrir.
      Se Amy estivesse aqui, pensou ela, iria achar que Drake est querendo me conquistar.
      Selena sabia, porm, que a amiga no precisava temer nada. Namoricos e flertes no eram o seu forte.
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      Captulo Dez
      
      No domingo  noite, por volta de 20:00h, Selena estava sentada no balano da varanda ao lado de V May. Nesse dia, a av estivera lcida o tempo todo. Pela 
manh, Wesley e Selena tinham ido  igreja com ela. Aps o culto, haviam almoado no restaurante predileto da senhora. Chegando em casa, a av fora tirar um cochilo, 
e Selena aproveitara para terminar um trabalho da escola. Enquanto isso, Wesley fora dar uma volta com Brutus, o cachorro da famlia, um enorme So Bernardo. A tarde, 
a garota preparara sanduches de queijo quente para lancharem. V May colocara no seu um picles bem azedo e tomara caf preto, bem forte, na sua xcara de porcelana.
      Tudo estava normal. As duas j tinham ido dar uma volta no quarteiro e agora se achavam sentadas na varanda, conversando a respeito de passarinhos. De tardinha, 
Cody e Katrina tinham vindo trazer os dois irmos mais novos, Kevin e Dilton, que agora brincavam de luta livre com Wesley e Brutus no gramado da casa.
      Caa a noite, uma calma noite de maio. Tudo parecia envolto em tons escuros, e eles j comeavam a ouvir os rudos tpicos dessa hora. Instantes depois, a 
van da famlia descia a rua, com o pai ao volante e parava  porta. Ele buzinou e soltou sua frase caracterstica:
      - Chegamos em casa, pessoal!
      Os garotos correram ao encontro dos pais e de Tnia. Minutos depois estavam na varanda, todos fazendo perguntas ao mesmo tempo, enquanto Brutus latia sem parar.
      - E a? indagou Wesley. Como foi l? O que decidiram?
      - Voc vai ser uma modelo famosa, Tnia? quis saber Dilton.
      - A bagagem chegou direitinho? perguntou Selena.
      - Diga logo, Nini, pediu V May, chamando a neta pelo apelido de infncia que a jovem detestava.
      A moa olhou para os pais. Os dois fizeram um aceno de cabea, dando-lhe permisso para contar. Fitando aqueles rostos ansiosos, ela explicou:
      - Vou sim! Vou mudar para Carlsbad. Embora essa fosse a resposta que todos desejavam, ficaram um momento em silncio, olhando para a jovem, sentindo a alegria 
e o senso de expectativa estampados no semblante dela.
      - Que beleza! exclamou Wesley, que foi o primeiro a falar.
      - Uau! disse Selena quase gritando. Ento voc vai mesmo!
      Tnia acenou que sim e dirigiu um olhar de gratido aos pais.
      - Queria que todos vocs ficassem conhecendo os pais do Jeremy. Eles so maravilhosos.
      - So mesmo, concordou mame.
      - E o Jeremy no  dos piores tambm, no, interveio papai brincando.  passvel. No parece nem um pouco com aquele cara l de Pineville. Como era mesmo o 
nome dele? Marvin?
      - Martin! responderam ao mesmo tempo Selena, Wesley, Tnia e mame.
      - Isso! falou papai, com um brilho brincalho nos olhos. O marciano.
      - Espero que papai no tenha ficado com essas brincadeiras perto de Jeremy, disse Selena. 
      - Graas a Deus, no! exclamou Tnia.
      V May deu um tapinha na perna de Selena e indagou: 
      - Quem  esse Jeremy?
      A garota aproximou-se mais da av e explicou:
      -  o rapaz que eu e Tnia ficamos conhecendo quando fomos  Califrnia no recesso da Pscoa. Ele  amigo de meus amigos que moram l. Lembra que falamos sobre 
ele? Pois , ele  irmo de Paul, e  mais velho que Paul.
      No rosto suave de V May, estampou-se uma expresso de quem se recorda de algo.
      - Ah , Paul! Gosto muito daquele rapaz. Ele levou um lrio pra mim, sabia?
      - Sei, respondeu Selena. Ele foi visit-la no hospital.
      - , foi sim. Gosto muito do Paul, repetiu V May. 
      Eu tambm, pensou Selena.
      - Vamos levar as malas pra dentro, disse o pai virando-se para Wesley, que imediatamente o seguiu at a van. Como foi o final de semana aqui, filho? Ns ficamos 
muito gratos de voc ter vindo para c.
      As mulheres se movimentaram para entrar em casa, e Selena ajudou V May a se levantar. Naquele momento, a garota achava que tudo estava perfeito. Segurava 
a mo sedosa da querida av. Os irmos menores corriam pelo quintal, seguidos do imenso Brutus que latia incessantemente. Todos os seus entes queridos se encontravam 
junto dela, com exceo de Cody, Katrina e Tyler. Estava adorando o aroma que ficara no ar aps a chuva, o tom alegre da voz de Tnia e a sensao agradvel que 
experimentara quando V May dissera o nome de Paul.
      A vontade dela era "congelar" aquele momento do jeilo que estava - at com as mariposas pousadas na portinha de tela. Era sua casa, sua famlia, sua vida. 
No queria que nada daquilo mudasse. Na verdade, bem l no fundo, no queria que Tnia fosse embora.
      Por que ser que sentia isso? E j que sentia, como poderia  diz-lo  irm?
      Uma hora depois, as duas estavam sozinhas no quarto. Tnia desarrumava as malas e narrava empolgada os detalhes da viagem. Selena se acomodara na cama, toda 
encolhidinha, j vestida com seu pijama, ouvindo atentamente. No perdia uma palavra.
      Tnia parecia ter ganhado vida nova desde que tudo aquilo comeara. Mostrava-se empolgada com todos os aspectos da situao. J havia contado a Selena a entrevista 
com o agente de modelos no sbado, relatando que ele achava que a jovem tinha possibilidade de arranjar trabalho imediatamente. Contara tambm que Jennifer ficara 
super feliz com o fato de Tnia ir morar com ela. Agora estava mencionando de novo que na segunda-feira, na Nordstrom, iria pedir transferncia para uma loja da 
Califrnia e mudar-se para l o mais rpido possvel. Tudo parecia perfeito.
      Tudo, menos a sensao de dor que Selena experimentava. Queria protestar e gritar para a irm:
      "No! Voc no pode ir embora, no. Ainda no." Nunca imaginara que iria ter tal reao.
      - Fico muito feliz por voc, Tnia, disse afinal, respirando fundo. Feliz mesmo. S que ainda no estou acreditando que voc vai embora. Na verdade, eu no 
queria que voc fosse. Vou sentir muita falta sua.
      Com movimentos graciosos, Tnia caminhou em direo a ela e passou os braos pelo pescoo da irm, num leve abrao Em seguida, tocou-lhe o rosto com os lbios 
num beijo rpido.
      - Pense o seguinte: vai ficar com o quarto s pra voc, disse a jovem sorrindo.
      E continuou sorrindo enquanto voltava para onde estava a mala quase vazia.
      Como  que ela pode ter essa atitude to fria? pensou Selena. Eu me abro com ela pela primeira vez na vida, e ela vem e me beija. Por que nosso relacionamento 
no foi sempre assim? E ser que algum dia viveremos outro momento igual a esse?
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      Captulo Onze
      
      Na semana seguinte, Selena no teve muito tempo para pensar sobre seu relacionamento com Tnia. Na segunda-feira, na aula do Prof. Rykert, eles se dividiram 
em grupos e passaram o tempo todo conversando a respeito do trabalho que iriam realizar fora da escola. Ronny j fizera algumas anotaes sobre as tarefas deles 
e foi logo distribuindo responsabilidades.
      Vicki pegou uma "xuxinha" que estava em seu brao e, segurando o prprio cabelo, fez um rabo-de-cavalo com ela.
      -  gente, disse a garota, d licena um minuto. Volto j.
      Saiu da roda deles e dirigiu-se para o lugar onde Amy e Byron estavam, pondo-se a conversar com os dois colegas. Na poca em que Selena comeara a freqentar 
essa escola, Amy e Vicki eram muito amigas. Pouco depois, porm, Vicki comeara a namorar um rapaz do terceiro ano, e Amy ficara sozinha. Com isso, ela e Selena 
se aproximaram um pouco uma da outra.
      - Est marcado para irmos  Highland House na tera e na sexta-feira, informou Ronny. O diretor quer que contemos uma histria da Bblia para as crianas e 
depois, talvez, cantemos algumas msicas com elas. No resto do tempo, ficaremos ajudando-os a fazer o "dever de casa".
      Ter tinha no rosto uma expresso de indiferena. Selena no saberia dizer se ele estava prestando ateno ou no.
      - Voc pode se encarregar de preparar a histria? Indagou Ronny, olhando para Selena. 
      - Claro. Sem problema. 
      No dia seguinte,  tarde, quando os quatro entraram na casa, Selena compreendeu que fora precipitada em aceitar a incumbncia. No seria nada fcil contar 
histria para aquele bando de crianas. Depois de passarem uma parte do dia na escola, muitas delas no queriam absolutamente saber de se sentar no cho para ouvir 
uma histria.
      Selena ficara acordada at quase meia-noite, colorindo e recortando as figuras das personagens bblicas, que depois pregou em um lpis para us-las como ilustrao 
ao contar a histria. Escolhera a parbola do "filho prdigo". Como as figuras eram muitas, pediu a Ronny, Vicki e Tre que a ajudassem a segur-las enquanto ela 
narrava.
      Tre no entendera que ela queria que ele segurasse um dos lpis e dirigiu-se para o fundo da sala, ficando de l a olh-los. Vicki no entrou bem no esprito 
da atividade e passou o tempo todo mandando que as crianas ficassem caladas.
      O Ronny, porm, participou com grande entusiasmo, principalmente quando era sua vez de levantar as figuras dos porcos de que o "filho prdigo" tratava quando 
"caiu em si". Ronny movia as figuras, fazendo os porcos danar, grunhindo o tempo todo. Estava at atrapalhando. As crianas riram demais e se puseram a imitar o 
barulho dos animais.
      - Ronny, interveio Selena, o "prdigo" tem de se conscientizar de que no quer ficar no chiqueiro.
      Sem parar de fazer danarem os porcos e sem tirar os olhos dos garotos, o rapaz se inclinou para a garota.
      - Mas pelo menos esto prestando ateno, disse. Vamos l, apresente a lio da histria enquanto ainda esto atentos.
      Selena tentou concluir, dizendo que o "prdigo" voltou para sua casa e que o pai dele estava l, olhando para a estrada,  sua espera. S que a Vicki, que 
segurava a figura do pai, tinha os braos esticados, segurando o lpis afastado de si, como se ele fosse um isqueiro prestes a explodir.
      - E Deus  assim tambm, disse Selena.
      Naquele momento, a garota se sentia bastante frustrada com a colega, que no estava mostrando toda a importncia da figura paterna, que representava Deus.
      - Ele nos ama e quer que voltemos para ele, continuou ela. Quer que peamos perdo pelas coisas erradas que fizemos e que lhe entreguemos nossa vida.
      Afinal, guardaram as figuras, e Selena ficou sozinha na frente. Contudo os pequenos logo comearam a desviar a ateno.
      - Se algum de vocs quiser fazer isso, prosseguiu a garota, sem saber bem que palavras devia empregar, se algum quiser orar e entregar a vida a Deus, ns 
podemos conversar com vocs depois.
      Vrios garotos j estavam se afastando, dirigindo-se ao fundo da sala, esperando que se abrissem as portas para irem brincar.
      - Antes de vocs sarem, insistiu ela, falando em voz alta e com certo desespero, eu queria orar por vocs. Por favor, crianas, parem onde esto e fechem 
os olhos.
      Ela aguardou uns instantes, correndo os olhos pelo aposento. Somente duas meninas fecharam os olhos, e uma delas se ps a abri-los e fech-los.
      - Vamos l, gente! interveio Ronny, aproximando-se de Selena. Parem onde esto e fechem os olhos.
      Agora todos olhavam para o rapaz, inclusive as duas garotinhas que antes haviam fechado.
      -  melhor voc orar logo, cochichou ele para Selena. 
      A garota inclinou a cabea de olhos cerrados, ciente de que talvez fosse a nica naquele salo a fazer isso. Fez uma orao curta de quatro frases e disse 
"Amm" mais depressa do que imaginara.
      - O.k., pessoal, podem sair, falou Ronny em voz alta para superar a barulhada das crianas.
      No precisou dizer duas vezes. Ele, Tre e Vicki foram atrs da meninada, e Selena ficou sozinha. A garota ps-se a guardar os objetos.
      Que bomba! pensou ela chateada. E olha s este cho! Como foi que eles conseguiram fazer tanta baguna em to pouco tempo?
      Em toda parte havia pedaos de copos de plstico que as crianas tinham usado na hora da merenda. Alguns haviam picado os copos em pedacinhos, como confetes, 
e espalhado pelo cho. Resmungando para si mesma, Selena pegou uma lixeira e se ps a catar o lixo e a colocar nela. 
      No ouviram uma palavra do que eu disse! pensou. Que fracasso!
      - Parece que voc  especialista em "filhos prdigos", n? Disse uma voz masculina atrs dela.
      - De jeito nenhum! replicou a garota sem olhar.
      - Por qu? Acha que eles no mudam nunca, Selena? 
      Era a voz dele e dissera seu nome. De flego suspenso, a garota se virou e deu com o rosto que estava gravado em sua memria havia meses. Paul. 
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      Captulo Doze
      
      Selena sentiu o sangue subir-lhe ao rosto e desbriu que, de repente, ficara sem voz. Paul se achava alguns passos dela, com um ar tranqilo e natural. Seu 
cabelo castanho, ondulado e volumoso, caa-lhe pela testa, dando-lhe o aspecto de algum que estivesse fazendo algo ao ar livre. Estava bem barbeado, e as faces 
e o nariz fino pareciam levemente bronzeados. Ou ser que ele tambm ficara vermelho?
      Ele segurava a figura do "filho prdigo" e girava o lpis entre os dedos, rodando-o de um lado para outro. Permaneceu em silncio por uns instantes, fitando-a 
com seus olhos claros, azul-acinzentados, que sorriam para ela, embora seus lbios estivessem cerrados.
      - Oi! disse Selena afinal, com uma vozinha meio espremida.
      Ela afastou uma mecha de cabelo do rosto e respirou fundo. Seu corao batia loucamente. Tentou dar um sorriso, mas seus lbios tremeram.
      - Oi! replicou ele. O que houve com suas botas?
      - As velhas botas de cowboy do meu pai?
      Ele fez que sim.
      - A sola do p direito soltou. E ainda no tive tempo de mandar consertar.
      Ele ainda se lembra das botas que eu usava no dia em que nos conhecemos.
      - Anda no lhe agradeci por ter mandado flores para minha av no hospital, continuou Selena. Ela ficou muito alegre.
      - E como ela est passando?
      - Est bem. Muito bem mesmo. Est passando muito bem. 
      Pare de falar, Selena. Est parecendo um papagaio.
      Por uns instantes, os dois permaneceram em silncio. Selena e Paul se olharam durante um longo momento. Em seguida, a garota percebeu que estava se acalmando, 
e teve a sensao de que se achava mais prxima do rapaz, embora no houvesse sado do lugar.
      - Eu queria lhe dizer... principiou Selena.
      - Tem uma coisa... comeou Paul ao mesmo tempo.
      Ambos soltaram um risinho nervoso e disseram juntos:
      - Voc primeiro...
      - Fale, disse, disse Paul, sorrindo para ela no apenas com os olhos, mas tambm com os lbios.
      - Eu......, falou Selena.
      A garota no estava conseguindo coordenar os pensamentos e coloc-los em palavras. Um lado dela queria correr para o rapaz e dizer:
      "Tenho orado tanto por voc e agora o encontro nesta misso evanglica. isso significa que Deus atendeu minhas oraes? Voc parou de andar longe dele?"
      Por outro lado, ela ainda estava meio abalada com aquele encontro inesperado. E sua vontade era virar e sair correndo. De repente, a porta se abriu e apareceram 
duas meninas com o cabelo todo cheio de trancinhas.
      - Ah, agora te encontramos, Paul. Vem bater corda pra ns.
      O rapaz no respondeu, mas continuou fitando Selena.
      - Vamos! disseram as garotinhas, aproximando-se dele e pegando-o pelo brao.
      Paul deu um passo para Selena e bateu de leve no brao delea com dois dedos da mo direita.
      - Uma hora dessas precisamos conversar, disse em voz baixa.
      As meninas insistiam em pux-lo, mas ele continuou:
      - Ah, e por falar nisso, o Clint gostou muito dos pezinhos.
      - Clint?
      - Na semana passada, explicou o rapaz, sem dar ateno s garotinhas que ainda o puxavam, eu a vi na calada l na frente. Vi quando deu um pacote para o Clint. 
Depois ele me disse que estava cheio de pezinhos de canela.
      - Era voc que estava na varanda? indagou a garota.
      O rapaz fez que sim e a permitiu que as pequenas o arrastassem para fora da sala. Quando ele passou perto de Selena, ela sentiu um perfume silvestre.
      - De quem  a vez de pular primeiro? perguntou Paul, passando um brao em cada uma das garotinhas.
      A porta se fechou e Selena se deixou cair sentada no cho. Permaneceu alguns instantes ali parada, tentando assimilar o que acabara de acontecer. Sabia que 
sua amiga Katie diria que essa coincidncia de Paul estar no lugar onde ela fora mandada para participar de um projeto social era uma "coisa de Deus". Mas por qu? 
O que ele estaria fazendo ali? Estava claro que as crianas o conheciam, ento j fazia algum tempo que ele freqentava o lugar. Ser que era um funcionrio da casa? 
Ou trabalhava como voluntrio? E nesse caso, por que teria se apresentado para atuar ali como voluntrio? Com base na primeira impresso que tivera dele, essa era 
a ltima coisa que ela achava que ele iria fazer. Contudo tinha de reconhecer que ele parecia mudado.
      - Selena! gritou l de fora uma voz masculina e em seguida algum abriu a porta.
      A garota virou-se com certa expectativa. Era Ronny. 
      - Voc vai vir ou no? Estou precisando de ajuda aqui no "dever de casa".
      - Eu s estava... ... dando uma arrumao aqui. Vou daqui a pouco.
      Ela se indagou se seu rosto ainda estava muito vermelho, j que o sentia pegando fogo.
      - Legal! replicou o rapaz com um aceno de mo e saindo. 
      Selena acabou de recolher os ltimos pedaos de papel e em seguida guardou os lpis na mochila. Quando pegou a figura do "filho prdigo", parou um pouco e 
ficou a girar o lpis lentamente entre os dois dedos, como Paul havia feito. O que ser que ele quisera dizer quando afirmara que ela era especialista em "filhos 
prdigos"? Ser que ele se via como o "prdigo" que regressara para casa?
      Na ocasio em que se haviam conhecido, o rapaz lhe falara sobre a namorada dele, e Selena lhe pregara um sermo, dizendo o quanto era errado namorar uma pessoa 
no crente. Por causa disso, ele se mostrara meio frio com Selena, e ficara s nisso. Ser que ficara mesmo? Ser que as oraes que ela fizera por ele durante aqueles 
meses tinham surtido resultado?
      A garota ainda sentia o corao batendo forte quando saiu do salo e entrou num aposento amplo, que no passado fora a sala de jantar da manso. Havia vrias 
mesas no cmodo, e a meninada estava fazendo o "dever de casa". Parecia que Ronny era o nico que se achava ali para ajudar as crianas, umas quinze ou mais. Paul 
no se achava  vista. Talvez tudo no tivesse passado de um sonho. Ela dormira pouco na noite anterior; ademais estivera cercada do barulho das crianas...Era bem 
possvel que houvesse apenas imaginado que o rapaz chegara perto dela, que olhara para ela e sorrira, que tocara em seu brao com os dedos. Colocou a mo no ponto 
onde ele batera de leve, como se assim pudesse verificar se aquilo fora mesmo um sonho ou era realidade.
      - Venha c! gritou Ronny, apontando para uma mesa onde havia cinco meninos, cada um com uma folha de papel, todas com o mesmo exerccio. Eles esto fazendo 
fraes. Voc pode dar uma fora aqui pra eles?
      Ainda com a cabea meio nas nuvens, Selena aproximou-se e se sentou numa cadeirinha. O garotinho que estava ao lado exalava um mau cheiro horrvel. Aquilo 
foi como um vidro de "sais" - despertou-a de seu devaneio. Contudo mal estava agentando ficar perto dele. O odor era to forte que Selena, meio despistadamente, 
procurou tapar o nariz. Lembrou-se do que lera sobre uma professora que lecionava numa escola do interior do pas. Os alunos dela eram to malcheirosos que ela andava 
com um leno encharcado de perfume. Essa professora ficava o dia todo levando o leno ao nariz para aliviar um pouco aquele forte odor.
      - 'T bom, disse Selena para o garoto, assim que ele acabou o exerccio. Voc j terminou, pode ir brincar l fora.
      O menino afastou a cadeira, dando a impresso de que estava ansioso para sair. Contudo, em vez de ir embora, aproximou-se mais de Selena e fitou-a intensamente.
      - Voc vem amanh de novo? indagou ele com uma expresso de splica nos olhos castanhos.
      - No, no, respondeu ela, tentando segurar o flego e falar ao mesmo tempo.
      O garotinho ficou um pouco decepcionado, mas continuou ali parado.
      - Eu venho sexta-feira, concluiu Selena, falando rapidamente.
      O rosto dele se iluminou.
      - Meu nome  Johnny, disse. No esquece, no, 't?
      - 'T, disse ela. No esqueo, no.
      Pode crer, Johnny, no vou me esquecer de voc, no! pensou.
      Ele saiu e Selena soltou a respirao, ansiosa para respirar fundo.
      - Voc pode fazer trabalhos manuais conosco na sexta-feira? quis saber uma das meninas. Na sexta-feira, a gente no tem "dever de casa", no, mas podemos desenhar 
e modelar se tiver algum para nos ajudar.
      - Claro, replicou Selena. Posso sim.
      - Toda sexta-feira? indagou outra menina.
      - Bom, nesta sexta-feira  certo, explicou a garota.
      Agora entendia por que o diretor se mostrara to contente quando os quatro estudantes tinham aparecido ali naquela tarde. Dissera que estavam com poucos auxiliares. 
Nesse momento, Selena percebera o quanto aquelas crianas precisavam de gente que lhes desse ateno.
      As outras crianas da mesa terminaram o exerccio e logo chamaram Selena para ir l fora para jogarem futebol. Ela deixou que a conduzissem puxando-a pela 
mo. Quando saram no amplo ptio, ela logo avistou Paul. Ele no estava batendo corda. Agora era Tre quem brincava com as duas garotinhas. S que naquele momento, 
eram as duas que batiam a corda para o rapaz pular. Era a primeira vez que Selena via o colega rir. As meninas haviam conseguido o que nenhum dos alunos da escola 
tinham sido capazes de fazer - tinham feito amizade com Tre.
      Paul se achava no centro do ptio, com um apito pendurado no pescoo e uma bola de futebol debaixo do brao. Quando Selena se aproximou, levada pelo seu novo 
"f clube", ele estava dando instrues aos garotos.
      - Ela  do nosso time! gritaram as crianas que estavam com Selena.
      Paul fitou-a com um misto de admirao e surpresa.
      - 'T bom, 't bom, gritou ele, atirando a bola para o alto. Agora  cada um por si. O gol  ali, naquela rvore.
      Ele trilou o apito e as crianas todas, mais ou menos vinte, se puseram a gritar na nsia de jogar.
      - Aqui, aqui! gritavam as meninas com vozinha estridente, correndo atrs da bola.
      Selena correu tambm e notou que Ronny se posicionara como goleiro. Deu uma espiada rpida na direo de Paul e se convenceu de uma vez por todas de que ele 
no era um sonho. Estava bem ali perto, com aquele sorriso tpico, que comeava nos olhos e alegrava todo o rosto. E olhava diretamente para ela.
      As meninas jogadoras ficaram rodeando Selena, ao mesmo tempo que corriam em direo ao gol. Fazia um pouco de calor e a garota desejou que tivesse vindo de 
short, em vez de cala jeans. Os animados jogadores de futebol corriam o campo todo. Selena tentava acompanh-los. Finalmente um menino conseguiu marcar um gol. 
A bola passou por Ronny, bateu na rvore e entrou.
      Ento Ronny trocou de lugar com o garoto que marcara, e o jogo continuou. Agora o colega corria ao lado de Selena, dando-lhe instrues  medida que iam jogando.
      - Faz um lanamento em direo  cerca, que vou l para receber, disse ele.
      Ela comeou a protestar:
      - Mas Ronny, os garotos  que tm de jogar...
      Ele, porm, j sara correndo. De repente, a bola apareceu  frente dela e Selena deu um chute para a cerca. O rapaz estava l, como dissera, e chutou para 
a rvore. O goleiro nem viu onde a bola passou.
      - Gol!!! gritou Ronny erguendo os braos.  isso a, gente!
      Em seguida, correu para Selena e ambos bateram as palmas de ambas as mos num "Toque aqui!" Depois aproximou-se dela e disse-lhe ao ouvido:
      - Eu no disse que formamos uma tima dupla?
      Num gesto espontneo, ele passou os braos em volta dela e deu-lhe um abrao rpido. Selena sentiu-se avermelhar do pescoo para cima. Aquele gesto do colega 
fora o mais afetuoso que ele tivera para com ela. Selena sabia que Paul estava observando-os. Sentiu um calor subindo para o rosto, chegando depois  testa, que 
se achava molhada de suor.
      - No pode! gritaram vrios meninos. Vocs dois no podem fazer isso!
      - Sabe de uma coisa? disse Selena, limpando o suor que se acumulara sobre o lbio superior e vendo que Paul se aproximava. Acho que vou parar agora.
      - Logo agora? exclamou Ronny. Com um pouco de estratgia, a gente ganha esse jogo fcil, fcil.
      - No sai, no, Selena! disseram as meninas do seu "f clube", retendo-a pelo brao.
      - Vamos jogar, gente! gritou um dos meninos. Paul, solta a bola! Vamos jogar!
      - Todo mundo est pronto? indagou o rapaz.
      Ele agora se achava a menos de dois metros, rodeado por um grupo de garotos. Selena sentiu de novo o cheiro de Johnny. S que agora no tinha muita certeza 
se ela prpria estava ou no contribuindo para aquela "poluio" do ar.
      - Dessa vez, no vou jogar, no, afirmou Selena para as meninas que estavam ao seu lado. Preciso ir verificar uma coisa l dentro.
      E com isso, ela saiu correndo, antes que algum notasse como seu rosto estava vermelho. E tambm no olhou para trs. Por isso no ficou sabendo qual a expresso 
que se estampou no rosto de Paul quando ele viu que ela estava saindo.
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      Captulo Treze
      
      -  o que estou lhe dizendo, afirmou Selena em tom firme para Amy,  noite.
      Ela contara para a amiga tudo que ocorrera na Highland House e concluiu:
      - E o pior  que no aconteceu nada.
      - Voc est querendo dizer ento que os dois conversaram por uns instantes e depois Paul voltou a ser aquele "fantasma" de sempre?
      - De certa forma, sim, replicou Selena. Mas no parece que  uma "coisa de Deus"?
      - Bom, principiou Amy, no quero acabar com seus sonhos Selena mas, na verdade, temos de reconhecer que nada aconteceu. Quero dizer, ele estava l, mas apenas 
olhou para voc, conversou um pouquinho e depois desapareceu.
      - Sei disso. Mas quando ele olhou pra mim, tive a sensao de que tudo  minha volta sumiu, ficando s ele.
      - Ah, qual ? disse Amy, comeando a rir. Voc  muito melodramtica, Selena. Ningum sente isso quando est perto de um rapaz.
      - No estou inventando, no, Amy. Senti sim.
      - Onde  que a Vicki estava o tempo todo? quis saber Amy.
      - Estava na varanda dos fundos, jogando cinco-marias com uma garotinha.
      - E ela no viu Paul?
      - No sei. Por qu?
      - S queria saber. Se ela o viu, na certa vai me contar.
      Houve um instante de silncio entre as duas, e Selena teve de se controlar para no deixar a mente divagar descontrolada. Vicki era uma garota que atraa a 
ateno de todos os rapazes que via. Ser que Paul seria o prximo da lista?
      - Ser que no d pra voc ir conosco  Highland House nesta sexta-feira? props Selena.
      Ela no tinha certeza se isso ajudaria em alguma coisa, mas no momento em que o disse, achou que seria uma boa idia.
      - No vou poder, no, explicou Amy.  sexta-feira que eu e o Byron vamos dar andamento ao nosso projeto social. Ah, eu lhe contei que no prximo final de semana 
vou comear a trabalhar no restaurante do meu tio?
      - Saiu outra recepcionista? perguntou Selena.
      A garota no estava conseguindo ficar empolgada com as novidades de Amy, pois ela prpria ainda estava vibrando com o que tinha para contar sobre Paul. E a 
colega no se mostrava muito interessada. Alis, no estava nem um pouco interessada.
      - Saiu, explicou a outra. E ele queria que eu comeasse j nesse sbado, mas respondi que j tinha um compromisso. A que horas voc larga servio no sbado?
      - Por volta de 16:00h.
      - Voc podia ir direto para a minha casa, para comearmos a preparar o jantar para o Ronny e o Drake. Eu lhe contei que ganhei a musse de chocolate?
      Selena havia se esquecido totalmente do jantar que teriam no sbado.
      - Que bom! exclamou.
      - Puxa, como voc est empolgada, hein? disse Amy irnica. No gosta de musse, no?
      - No, quero dizer, gosto. Gosto de musse.
      - 'T bom ento. Tenho de desligar. Amanh te encontro perto do meu escaninho, o.k.?
      No dia seguinte, Selena esperou a colega at a campanhia tocar, mas ela no apareceu. Entrou em classe quando j ia soando o segundo sinal e pegou logo o trabalho 
para entregar. Na noite anterior, ficara acordada at tarde digitando o relatrio, mas estivera o tempo todo pensando em Paul. Que ser que ele achara dela? Por 
que no conversara mais com ela? Ser que iria v-lo de novo?
      Ademais, sua casa estivera muito agitada  noite, por causa dos planos de mudana de Tnia, e ela no pudera mencionar nada para ningum sobre o encontro com 
o rapaz. Vendo que Amy no atribura muita importncia ao fato, Selena decidiu que no iria falar dele com mais ningum, como se fosse algo de extraordinrio.
      O curioso, porm,  que tinha muita vontade de comentar com Ronny. Ele era seu amigo. J se abrira com o rapaz a respeito de diversas questes, inclusive sobre 
o fato de sua irm ir embora. Alm disso, ele tinha estado l, na Highland House. Ficara conhecendo Paul. Com certeza, se mais ningum concordasse com ela que aquilo 
fora uma "coisa de Deus", Ronny concordaria.
      Por alguma razo, porm, no teve coragem de falar com ele. Ainda no estava muito convencida de que o leve abrao que o colega lhe dera no jogo, depois de 
marcar o gol, fora apenas um ato de irmo, um extravasamento da alegria pela vitria. Contudo continuava meio confusa. E o mais engraado  que nem pensara em contar 
para Amy acerca do abrao. E a colega teria adorado ouvir isso, j que se tratava de Ronny. Acabou achando que no deveria conversar com o colega a respeito de Paul 
nem conta a Amy sobre o abrao que Ronny lhe dera. Na verdade, no era importante.
      Quando chegou a hora do almoo, Amy e Selena foram juntas para o refeitrio. E Amy complicou tudo. Contou a Selena que, de manh, na chegada, ficara conversando 
com Vicki no estacionamento e por isso no fora encontrar-se com ela junto ao escaninho.
      - Perguntei a Vicki se ela ficara conhecendo um cara chamado Paul, e ela respondeu que viu um rapaz no ptio jogando futebol com as crianas, mas que no sabia 
o nome dele.
      - Mas voc no disse pra ela que eu o conhecia, disse?
      - Bom, principiou Amy, e baixou para o cho os grandes olhos castanhos.
      - Ento disse. O que voc contou pra ela?
      - Ah, s algumas coisas.
      - Aposto que contou tudo, no foi? quis saber Selena.
      - Eu e a Vicki somos amigas h muito tempo, explicou Amy. Imediatamente, procurando defender-se. Ela no vai contar pra ningum. Pedi a ela pra no contar.
      - Amy, que raiva que estou de voc!
      - Des-cul-pa! pediu a garota num tom bem acentuado.
      - Voc sabia que o que lhe falei sobre Paul era confidencial, disse Selena, parando junto  porta do refeitrio. Voc foi desleal comigo. No lhe dei permisso 
para ir contando minha vida para outros.
      Os estudantes iam passando pelas duas e entrando no salo. Selena falava em voz baixa, para que apenas a amiga escutasse. Amy desviou o olhar, como se fosse 
uma garotinha que fizera algo errado e fora descoberta.
      Afinal Selena sentiu que se acalmava e concluiu:
      - Por favor, Amy, eu s queria que voc no sasse contando minha vida pessoal para outros assim, no. Aquela vez que voc percebeu que eu achara que o Ronny 
me convidara para ir ao jantar de gala, quando na verdade a Vicki  que o chamara, voc falou que sabia guardar segredo.
      - Eu disse isso?
      Selena sentiu o sangue fugir-lhe do rosto.
      - Voc no contou para o Ronny, contou?
      A expresso que se estampou no rosto da garota revelou tudo.
      - Mas s contei porque ele estava querendo saber o que voc sentia por ele, explicou ela.
      - Ele mesmo poderia ter me perguntado! exclamou Selena com vigor. Qualquer dia, qualquer hora! Ele sabe que eu teria respondido com sinceridade!
      Parou para recobrar o flego, olhando o corredor agora vazio.
      -  por isso que voc vem insistindo para eu namorar o Ronny? Voc disse para ele que eu gostava dele e agora est querendo comprovar o que afirmou, no ?
      - Do jeito que voc fala, parece que fiz uma crueldade, defendeu-se Amy.
      - Foi uma enorme desconsiderao! retrucou Selena. Voc falou com outros sobre meus sentimentos, revelando fatos que lhe relatei confidencialmente.
      Selena tinha a sensao de que voltara a ser uma garotinha de doze anos, brigando com a melhor amiga. Ao pensar nisso, acalmou-se. De certa forma, ela ainda 
era uma garota de doze anos no que dizia respeito a rapazes. No tinha a experincia de Vicki nem estava ansiosa como Amy. O que a dominava era aquela obsessiva 
paixozinha por Paul, um rapaz mais velho.
      - Voc tem razo, disse Amy, olhando muito sria para a amiga. Falei demais tanto com a Vicki como com o Ronny. Sinto muito, muito mesmo. Me desculpe.
      Selena soltou um suspiro profundo e disse:
      - Aceito suas desculpas. Vamos l. Vamos almoar.
      Uma virtude de Selena era que sabia ser justa. Desde pequena, aprendera em casa que podia dizer tudo que pensava, abertamente e com exatido. Entendera tambm 
que, numa discusso, a atitude mais acertada era a do primeiro que tomasse a deciso de perdoar e esquecer.
      - Passou a raiva? indagou Amy.
      - Vai passar, replicou ela. Eu disse que aceito suas desculpas; e aceito mesmo. No vou mais brigar com voc por causa desse episdio.
      - Humm! Que bom! exclamou Amy quando as duas se encaminhavam para a mesa onde costumavam se sentar.
      - Bom? Por qu?
      - Foi a primeira vez que algum me perdoou to depressa. Na minha casa, pra gente ser desculpada, tem de lavar o carro da pessoa, ou fazer o bolo predileto 
dela, para depois ela comear a pensar se vai nos perdoar ou no.
      Selena sorriu. No era assim que agiam na sua famlia.
      - Podemos sentar com vocs? indagou Selena, parando perto de uma mesa onde j estavam o Ronny, o Drake e mais quatro estudantes.
      Vicki no estava com eles, o que fez com que a garota se sentisse um pouco mais aliviada. Assim seria menos provvel que falassem sobre Paul.
      - Voc  muito diferente, Selena, comentou Amy.
      - Obrigada, creio eu.
      - Diferente como? quis saber Drake, jogando na boca um nacho* e limpando os lbios com um guardanapo, antes que o queijo escorresse pelo queixo e casse na 
bandeja.
      ___________________
      * Nacho: uma comida mexicana. Uma espcie de chips feito de milho, que se come com queijo cremoso e muita pimenta. (N. da T.)
      
      -  isso que tem a para o almoo? indagou Amy, fugindo  pergunta do rapaz. Nacho?
      - Tem sanduche tambm, explicou Ronny. Selena lhe contou como foi bom ontem l na Highland House?
      - Pra falar a verdade, contou sim, respondeu a garota. Parece que havia l muita gente interessante.
      E ao dizer isso, ela ergueu ligeiramente as sobrancelhas, dando a entender que sabia mais do que estava revelando. Selena ficou de flego suspenso, para ver 
se ela faria mais algum comentrio sobre Paul.
      - Vou buscar um sanduche pra mim, disse Amy, como que encerrando o assunto. Algum quer alguma coisa?
      Selena lhe dirigiu um olhar de gratido por ter limitado seus comentrios ao mnimo possvel.
      - Ei, Selena, tive uma idia, disse Ronny. Sexta-feira podemos ir comer uma pizza depois que sairmos de l.
      - Voc quer dizer todos ns? Vicki e Tre tambm? E talvez algumas das pessoas que trabalham l, se puderem vir conosco?
      - Ah, principiou o rapaz, parecendo meio surpreso. Claro. Pra mim, est bom.
      Selena virou-se para Tre, que estava calado, sentado do outro lado de Drake, e perguntou:
      - Voc gostaria de ir a uma pizzaria conosco sexta-feira, depois que terminarmos o trabalho l na Highland House?
      Tre olhou para ela e fez que sim. Ela tinha certeza de que ele compreendera o que ela dissera. De qualquer modo, assim, aquela ida  pizzaria no lhe traria 
mais confuses. A despeito do que Amy dissera a Ronny, agora o rapaz compreenderia que o que havia entre eles era apenas amizade, e se Selena aceitava a companhia 
dele, isso no significava que estivesse querendo namor-lo.
      A garota se ps a descascar uma laranja, ouvindo o zunzum do aposento. Procurou analisar a si mesma para ver se de fato se acalmara depois da discusso com 
Amy.
      Meu corao est em paz contigo, Senhor? pensou, no momento em que colocava na boca um gomo de laranja e o mastigava, sentindo o doce sabor do suco. No quero 
que haja nada errado nele.
      Enbtretanto tinha a sensao de que era tarde demais. Parecia que sua vida estava comeando a ser envolvida por um redemoinho.
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      Captulo Quatorze
      
      Na sexta-feira de manh, Selena levou um tempo para decidir o que iria usar. Levantou-se cedo para tomar banho e poder escolher com calma a roupa certa. J 
estava na terceira, quando Tnia virou na cama e disse:
      - Que foi que houve que voc est a experimentando roupas?
      Como a garota ainda tinha tempo, aproximou-se da cama e se sentou com movimentos leves. Esse tipo de conversa com a irm era novidade para ela, por isso sentia 
que precisava ir com cautela. Estava com muitos pensamentos guardados. Eram coisas que no dissera a Amy, depois da discusso que tivera com ela, e tambm no poderia 
comentar com Ronny.
      - Talvez veja o Paul hoje, disse afinal.
      Tnia teve uma expresso de interesse e ergueu-se, apoiando-se num dos cotovelos.
      - Ah ? indagou.
      Sentindo-se estimulada pelo interesse da irm, Selena resolveu contar tudo.
      - Mame lhe falou sobre o que aconteceu na Highland House tera-feira?
      - No. Voc sabe como mame . No conta nada a no ser que a gente diga que pode. A palavra que ela mais fala  "Humm... humm", concluiu Tnia, dando uma 
risadinha.
      Selena sentiu uma leve irritao ao ver a irm to animada e feliz, e isso cedo de manh, que antes era a pior hora do dia para Tnia.
      Explicou que ela e Ronny estavam realizando um trabalho social, uma tarefa da escola. Em seguida, foi mais fundo e contou que, na tera-feira, Paul fora ao 
salo onde ela estava e lhe falara algo sobre "prdigos". Ao final do dia, porm, sara sem voltar a conversar com ela. Tnia ia ouvindo o relato com bastante ateno.
      - Pois . E pode ser que eu o veja hoje de novo, e estou um pouco nervosa, confessou Selena. No, pra falar a verdade, estou petrificada. Nunca passei por 
isso antes.
      - O primeiro passo, disse Tnia, que agora se achava totalmente desperta,  a orao. A gente sempre tem de orar.
      Selena quase caiu na risada.
      - No tenho feito outra coisa. J faz vrios meses que estou orando por Paul. Isto , no peo a Deus para encontr-lo novamente, mas que ele volte a ter uma 
comunho profunda com o Senhor.
      -  mesmo? perguntou Tnia, com um leve tom de admirao. Ento creio que Deus est atendendo suas oraes, porque nas frias ele vai para a Esccia, para 
trabalhar numa misso que foi fundada pelo av dele.
      - Ah, ? disse Selena, sentindo o corao apertar-se. Quando?
      - No sei bem, mas deve ser j, respondeu Tnia, estalando os dedos. A Highland House  ligada  misso fundada pelo av deles. Lembro-me de que Jeremy me 
perguntou se eu j tinha ouvido falar dela, pois o tio dele  o diretor dessa casa aqui em Portland. Acho at que o Paul est morando na Highland House. As aulas 
dele j terminaram, mas ele ainda no tem dinheiro para ir para San Diego nem para Londres.
      Quando ela disse "nem para Londres", Selena se viu inundada por uma poro de recordaes. No mesmo instante, teve vontade de pegar um avio e viajar para 
Londres junto com Paul.
      - Sabe o que poderamos fazer? continuou a irm. Vou ver com mame se podemos convidar o Paul e o tio dele para virem jantar aqui, antes de eu ir para San 
Diego e de Paul viajar para Londres.
      Selena adorou a idia. Antes, porm, que sua imaginao comeasse a criar uma infinidade de sonhos, Tnia ajuntou:
      - Lembre-se de uma coisa, Selena, se for para acontecer, acontecer. Se no for, no haver nada.
      Tnia era pouco dada a reflexes profundas. Dessa vez, porm, Selena reconheceu que a irm tinha razo. Apesar de tudo, essas ligaes de sua famlia com a 
de Paul eram bastante interessantes, e lhe traziam muitas esperanas.
      - Selena! gritou mame do lado de fora da porta, batendo de leve e entrando. Preciso ficar com o carro hoje, ento vou lev-la  escola. D para voc ficar 
pronta dentro de uns dez minutos?
      - D! respondeu a garota.
      Ela deu uma olhada rpida para o relgio que estava sobre a cmoda da irm e imediatamente entrou em ao, terminando de aprontar-se. Resolveu usar roupas 
simples: uma cala jeam, uma camiseta branca e um coletinho de algodo. Colocou tambm um conjunto de pulseiras de couro entrelaadas com contas e brincos combinando.
      Selena chegou na escola  hora certa, mas teve muita dificuldade para se concentrar nos estudos. Suas emoes estavam bem agitadas. Sentia-se ansiosa para 
rever Paul, e havia a possibilidade de ele ir jantar em sua casa. Pensava tambm nas diversas frases que pretendia dizer-lhe se o visse hoje. Na noite anterior, 
antes de pegar no sono, ficara "ensaiando" vrias delas. Planejava conversar sinceramente com ele, sem fazer brincadeiras nem gozar dele. Tinha mania de agir assim 
com rapazes; dessa vez, no faria isso. Iria revelar-lhe que orara por ele durante vrios meses. E naquele momento, meio dormindo, meio acordada, imaginara Paul 
pegando em sua mo e segurando-a com firmeza.
      A garota abanou a cabea para afastar a lembrana desse sonho. Precisava prestar ateno ao professor, que dava as ltimas instrues sobre o dever de casa. 
Estava na hora de guardar os pensamentos acerca de Paul dentro daquela invisvel caixinha de sonhos que havia em seu corao; e deix-la trancada pelo menos at 
de tarde.
      Na hora do almoo, Ronny encontrou-se com ela perto do escaninho e avisou-lhe que ele e Tre iriam almoar no ptio da escola, j que o tempo estava bom. Disse 
ainda que precisaria da ajuda dela para preparar a histria que iriam contar  tarde. Como Selena havia se encarregado dessa tarefa sozinha na tera-feira, Ronny 
e Vicki iriam ficar com a responsabilidade dessa vez.
      Selena foi com os rapazes para o ptio, sentindo que, em parte, estava "fugindo" de Amy. Sua mente se achava to ligada em Paul, que tinha receio de se descuidar 
e contar algo  amiga.
      - Cad a Vicki? indagou.
      - Parece que ela tem outras coisas pra fazer, explicou Ronny, pegando seu violo e afinando-o. Disse que, de tarde, iria encontrar-se conosco l.
      O rapaz se ps a dedilhar o instrumento, cantando baixinho os trs cnticos que pretendia ensinar s crianas. Tre acompanhava atentamente cada movimento dele.
      - Quer tocar? perguntou Ronny, estendendo o violo para o colega.
      Selena ficou emocionada com a atitude do rapaz. Ela praticamente ignorara o outro, mas Ronny o tratava como amigo, a ponto de lhe oferecer o violo. E ela 
sabia o quanto o rapaz era apegado a ele. Certa vez, Ronny o levara  casa de Selena, mas no permitira que Kevin e Dilton o tocassem.
      Com gestos tmidos, Tre pegou o instrumento e se ps a tocar. Da a pouco comeou a entoar antigas msicas populares americanas, acompanhando-se com perfeio. 
Selena e Ronny o olhavam surpresos.
      - Onde aprendeu a tocar assim? indagou Ronny. Voc toca muito bem.
      - Meu irmo sabe tocar, disse Tre. Ele me ensinou.
      Selena se deu conta de que era a primeira vez que ouviu o garoto dizer uma frase completa. Com isso, deduziu que devia compreender tudo que diziam, mas era 
tmido demais para participar da conversa.
      Foi bom ela ter percebido esse dado a respeito do colega, pois  tarde, quando foi com ele e Ronny para a Higland House, estava bem mais  vontade. Alm disso, 
sentiu-se mais segura para trabalhar nesse projeto em grupo, embora Vicki no tivesse estado presente no momento em que ensaiaram.
      Ronny diminuiu a marcha da camionete perto do porto da casa e estacionou. Quando saam do veculo, uns dez ou doze meninos que ali estavam brincando e gritando 
bastante os avistaram e vieram correndo para eles. Selena sorriu cumprimentando-os. Todos falavam ao mesmo tempo. Alguns queriam jogar beisebol. Outros suplicavam 
que jogassem futebol com eles. Duas garotinhas se aproximaram correndo e relembraram a Selena que ela havia prometido fazer trabalhos manuais.
      - Primeiro vamos entrar e fazer o cultinho, disse a garota.
      Erguendo a cabea, correu os olhos pela varanda, procurando ver se Paul se achava ali.
      - Ns preparamos algo muito legal para vocs hoje, continuou.
      - J sei o que , disse um garotinho, olhando para Ronny. Voc trouxe o violo.
      - Isso mesmo, respondeu o rapaz. Querem entrar pra me ouvir tocar?
      - Voc sabe tocar bem? quis saber outro menino.
      - No to bem quanto o meu colega Tre, mas toco.
      Todas as crianas voltaram a ateno para Tre enquanto subiam a escada da varanda.
      - Vamos l, gente, disse Selena, pondo a mo na maaneta da porta. Vocs vo ver que surpresa maravilhosa trouxemos!
      Assim que abriu, parou e ficou gelada. Paul e Vicki estavam ali, pertinho um do outro. A garota tinha o rosto erguido para o rapaz. Paul tambm a fitava nos 
olhos e parecia prestes a acariciar a face dela com a mo direita.
      
      
      
      
      
      Captulo Quinze
      
      A meninada entrou fazendo barulho, mas nem Paul nem Vicki se mexeram. As crianas comearam a rir e a soltar piadinhas.
      - Ele vai beijar ela!
      - Ui! Namoradinhos!
      Selena e os outros ficaram observando. Vicki piscou vrias vezes e Paul passou os dedos de leve sob o olho direito da garota.
      - Pronto, disse ele, erguendo o indicador direito para mostrar a ela. Peguei.
      - Obrigada! replicou Vicki. Essa minha lente nova fica s saindo do lugar. No consigo peg-la.
      Parecia que Paul no a escutava mais. Virara-se para o grupo e a primeira pessoa que fitou foi Selena.
      - Oi! disse ela, falando alto para superar o barulho reinante. As duas amiguinhas j estavam cada uma agarrada a um brao, puxando-a para o salo, para onde 
o diretor se dirigia com o resto das crianas.
      - Oi! respondeu Paul.
      O rapaz estava usando uma camisa de brim azul-claro e tinha as mangas arregaadas. No brao esquerdo, tinha uma correia com tiras de couro tranadas. Em torno 
da cintura, estava com um cinto largo, de carpinteiro, com algumas ferramentas.
      - Vicki, disse Ronny, passando  frente de Selena e quase acertando-a com o violo. Voc vai nos ajudar a ensinar os cnticos?
      A garota estendeu a mo, mostrando a lente "rebelde". Selena notou que um dos olhos dela tinha uma cor azul piscina, enquanto o outro exibia a cor verdadeira, 
cinza claro.
      - Vou; assim que colocar a lente, explicou Vicki.
      - Que bom que voc veio! exclamou Ronny para a colega, que saiu corredor abaixo. Ento vamos logo, concluiu ele para Selena.
      As prestimosas acompanhantes da garota prontamente foram seguindo atrs de Ronny, afastando Selena de Paul. A menorzinha, ngela, que usava uma franja bem 
comprida, logo agarrou o brao direito dela. A outra, Meruka, que estava sem os dentes da frente e era um pouco mais desinibida, pegou firme o esquerdo. As duas 
foram puxando-a pelo brao, em direo ao salo. Quando elas j iam passando pela porta, a garota se virou e deu uma olhada para Paul. O rapaz permanecera parado 
no mesmo lugar, junto  porta de entrada, com os braos cruzados. Tinha no rosto uma expresso de quem estava achando graa em algo.
      - Voc vai ficar por aqui? indagou ela.
      Ela acenou que sim.
      - timo! foi a nica palavra que lhe veio  mente para dizer.
      E com mais um puxo apressado, as garotinhas a arrastaram para o salo.
      Ronny estava dizendo s crianas para se sentarem e prestarem ateno. Uma boa parte obedeceu. Selena tambm se sentou, com as pernas cruzadas  oriental, 
tendo de cada lado uma de suas novas amiguinhas. Em seguida, procurou silenciar a meninada. Enquanto isso, Ronny tirava o violo da capa e se punha a afin-lo. A 
garota notou que Vicki entrou no salo e ficou em p a um canto, perto de Tre.
      Onde ser que o Paul est? pensou Selena. Ser que ele tambm vai vir para c?
      Ronny comeou a tocar um cntico tpico de escola dominical, que a maioria das crianas americanas conhece. Entretanto Selena foi a nica que cantou com ele. 
Ao que parecia, a meninada presente ali nunca o ouvira.
      Ronny tocou outras msicas, que tentou ensinar aos meninos. Eles pareciam prestar mais ateno no rapaz do que tinham prestado em Selena na tera-feira passada.
      Contudo Ronny no contou uma histria bblica, preferindofalar de como se tornara crente. De forma bem resumida, deu seu testemunho pessoal, citando vrios 
versculos da Bblia. Disse que desde pequeno ia  igreja, acreditando que iria para o cu quando morresse. Certo dia, quando estava com oito anos, aconteceu um 
acidente que mudou tudo. Estava nadando numa piscina e de repente os cadaros do seu calo de banho se agarraram num filtro. Ele ficou preso ali uns instantes, 
lutando para solt-los, e quase morreu afogado. Naquele momento pediu a Jesus para perdoar seus pecados e entrar em sua vida, para que ele pudesse ter certeza de 
que iria para o cu. Os meninos o ouviam fascinados.
      - A chegou um anjo e te salvou? perguntou um deles.
      - No, replicou o rapaz, com aquele jeito prprio de sorrir. Consegui tirar o calo e subi  tona pelado.
      A garotada caiu na risada, e foi quase impossvel fazer com que voltassem a prestar ateno em Ronny e na concluso que ele deu.
      - Vocs todos precisam entregar mesmo a vida a Deus, continuou o rapaz, erguendo um pouco a voz. Deus quer que todos venham a ele. Lembram-se da histria do 
"filho prdigo"?
      Selena no tinha muita certeza de que eles o estavam escutando.
      - Sssssiu! fez ela. Presta ateno, gente!
      Como  que eles vo entender tudo isso? pensou, tentando fazer com que se calassem. Nem conhecem bem a palavra "prdigo". Por que no escolhi outra histria? 
Estas crianas aqui no compreendem esse conceito de um prdigo perder tudo e acabar indo trabalhar num chiqueiro.
      - 'T bom, disse Ronny afinal, num ltimo esforo para reconquistar a ateno dos garotos. Agora vou orar. Por favor, todos vocs fechem os olhos. Isso mesmo. 
Vamos esquecer tudo que est acontecendo ao nosso redor e conversar com Deus. 
      Sem se preocupar com a baguna que as crianas faziam, ele fez uma orao fervorosa, sem pressa, como se estivesse com muito tempo. Selena baixou a cabea, 
fechou os olhos e foi orando silenciosamente junto com ele. Assim que o rapaz terminou, a meninada se levantou e foi logo se dirigindo para a porta.
      - Antes de vocs sarem, disse Ronny em voz alta, queremos dizer-lhes que Deus os ama, a todos vocs. Ele quer que vocs venham a ele, quer adot-los em sua 
famlia, para que se tornem filhos dele. 
      A meninada abriu a porta e saiu correndo.
      - Vamos fazer trabalhos manuais! disse Meruka a Selena.
      A garotinha sorria, exibindo a falha dos dentes.
      - Voc prometeu! interveio ngela.
      - 'T bom! concordou Selena, levantando-se e passando um brao em torno de cada uma das meninas. Mas antes vamos dizer ao Ronny que a palestra dele foi muito 
boa. tima palestra Ronny!
      O rapaz tinha um ar cansado.
      - Voc acha que algum prestou ateno?
      - Eu prestei! respondeu Meruka.
      - Eu tambm! disse ngela, batendo nas franjas para afast-las dos olhos.
      - timo! exclamou Ronny, sorrindo para as meninas.
      Em seguida, ele tirou o violo da capa e estendeu-o para Ter.
      - Tome! disse ele. Toque para eles l na varanda. Vo ficar encantados!
      Tre abriu um sorriso radiante e alegremente aceitou o oferecimento.
      - Vamos, disseram as impacientes "artistas" para Selena. Vamos l!
      - T bom, 't bom! J estamos indo! falou a garota, conduzindo-as porta a fora.
      Assim que se encontraram no corredor, ela olhou para um lado e outro  procura de Paul.
      - Meninas, disse ela em voz suave, sabe aquele moo legal que estava aqui na entrada um momento atrs?
      - O Paul? indagou Meruka.
      - . Vocs o viram por a?
      - Por qu? Voc est gostando dele? quis saber a garotinha.
      Bem l no fundo do corao, na caixinha de sonhos de Selena, uma vozinha que mais parecia um trinado de passarinho respondeu:
      Estou! Estou muito apaixonada!
      A garota sentiu o rosto avermelhar-se, mas no deu ateno  fala que vinha de seu corao. Deu uma risadinha suave e disse:
      - No! Claro que no!
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      Captulo Dezesseis
      
      E durante meia hora, Selena ficou supervisionando o trabalho dos pequenos artistas, que agora eram em nmero de onze. Arranjou vrios tipos de projetos: fazer 
colares de macarro ou de contas, figuras de massinha, marionetes, mscaras, etc. As idias foram s aparecendo, e ela comeou a pensar se a Highland House no gostaria 
de ter um programa desses nas frias e se no aceitariam voluntrios para trabalhar com as crianas. E pensou tambm se Paul iria passar as frias todas fora.
      De repente, sentiu um cheiro forte, bem caracterstico. Selena virou-se para a porta e l estava Johnny, com um brilho de esperana nos olhos castanhos.
      - Voc lembra de mim? indagou ele.
      - Claro. Voc est bom, Johnny?
      No rosto do menino, estampou-se uma expresso de satisfao ao ver que ela recordara seu nome.
      - Posso brincar aqui?
      - Claro. Fica ali com aqueles garotos, disse Selena, mandando que ele se sentasse junto com dois meninos que estavam numa mesa fazendo aviezinhos de papel. 
Voc quer fazer aviozinho tambm ou quer desenhar?
      Os outros garotos comearam a brigar pelos pedaos de papel que tinham, dizendo que eram poucos e no dariam para o Johnny tambm. Selena ouviu duas meninas 
que se achavam numa mesa prxima dizerem:
      - No deixa ele sentar perto de voc, no. Ele gosta de ficar chutando a gente.
      - , eu sei. E tem um cheiro ruim tambm.
      - Sai daqui, Johnny! disse um dos meninos.
      Selena se deu conta de que estava prendendo o flego de novo. Comeou a desejar que houvesse um ventilador na sala. O fedor estava forte demais. Johnny se 
achava parado entre as duas mesas, esperando uma definio por parte de Selena.
      - Ah, Johnny, sabe o que mais? Voc no quer ir l pra fora jogar futebol com os outros meninos?
      O garoto abanou a cabea.
      - Quero fazer um sapo.
      - Um sapo, n? repetiu Selena. Ento vamos ver. Voc quer fazer um sapo.
      Correu os olhos pelo aposento rapidamente. A porta e as duas janelas j estavam abertas. No dava para arranja mais ventilao do que j havia nela.
      -  gente, disse afinal, vamos l para a varanda? A tarde est tima. Podemos levar tudo para l. Cada um pegue alguma coisa e vamos.
      As crianas se mostraram ligeiramente relutantes em relao  sugesto dela. Algumas simplesmente desistiram de continuar fazendo trabalhos manuais. Quando, 
por fim, ela conseguiu reorganizar todas na varanda, s haviam ficado sete e mais o Johnny.
      Contudo Selena sentiu que fizera bem em levar a turminha para a varanda. Ela era bem ampla. Alm disso, ali soprava uma brisa calma que trazia o doce perfume 
de madressilvas, muito agradvel, apesar de chegar misturado ao odor da fumaa dos nibus que passavam na rua. Dali Selena avistava a porta da cozinha, junto  qual 
j se formava uma longa fila. A garota se lembrou de que ouvira dizer que eles serviam jantar pra cerca de cento e cinqenta pessoas, todas as noites. Soubera tambm 
que tinham espao para dar abrigo noturno a oitenta e cinco moradores de rua. Os homens dormiam no barrco, e as mulheres e crianas, no segundo andar da Higland 
House.
      Selena ficou admirada de ver quanta gente aparecia ali todas as noites, surgindo como que do nada. De onde ser que vinham? Como acabavam indo parar ali? Cada 
um deles devia ter sua prpria histria para contar.
      - Hohnny, disse ela, espalhando no cho os artigos com que as crianas iriam trabalhar, quantos anos voc tem?
      - Ele tem cinco, respondeu uma menina. Sou mais velha que ele.
      - Onde voc morava antes de vir para c? indagou ela.
      - No sei, replicou o menino, sentando-se perto dela e estendendo o brao para pegar um lpis crayon verde.
      - O pessoal aqui da Highland House j conseguiu arranjar trabalho para sua me?
      - No sei onde minha me est, explicou o garoto. Ela foi embora quando eu era nenm. Eu moro  com meu tio.
      Selena percebeu que no estava conseguindo mais prender o flego. Alm disso, sentia o corao condoer-se de pena daquele garotinho.
      - Vamos l, Johnny. Vamos ver se conseguimos fazer um sapo.
      Naquele momento, Selena sentiu todo o impacto da realidade da vida daquelas crianas. Elas viviam em condies difceis e no eram as culpadas por isso. Tinham 
problemas que no poderiam ser resolvidos da noite para o dia. Aquelas quatro horas de servio que seu grupo iria prestar ali, dando um pouco de ateno queles 
meninos, no seriam suficientes para mudar a situao. Selena sentiu-se profundamente ligada com eles. Compreendeu que, naquele instante, ela se encontrava exatamente 
onde Deus queria que estivesse, cumprindo a misso para a qual o Senhor a criara - fazendo um sapo para o Johnny.
      - Temos de fazer uns olhos bem grandes para ele, disse a garota, pegando a tesoura. E vamos arranjar umas patinhas compridas tambm. Sabia que foi Deus quem 
criou os sapos?
      - Eu sei uma histria sobre um prncipe encantado, interveio ngela. Ele virou sapo e a princesa teve de beij-lo para que ele virasse prncipe de novo.
      - Isso mesmo, concordou Selena sorrindo.  uma historinha muito bonita, n?
      - kkk! Eu nunca beijaria um sapo, comentou Meruka em voz alta, a ponta da lngua aparecendo no ponto onde lhe faltavam dentes.
      - Tem gente que come sapo, informou um garotinho.
      - Eu no como, no, disse uma garota. Prefiro beijar.
      - Tome, Johnny, falou Selena, estendendo-lhe os olhos que recortara. J quer colar os olhos?
      - Voc j beijou sapo, Donassalena?
      - Donassalena?
      - Como  que voc chama mesmo?
      - Ah, Dona Selena, repetiu a moa com um sorriso.  Pode me chamar s de Selena.
      - Voc j beijou sapo, Selena?
      A verdade era que, apesar de ter dezesseis anos, Selena no tinha beijado ningum - nem sapo, nem prncipe.
      - No, respondeu, no beijei nenhum sapo.
      As meninas deram risadinhas. De repente, ouviram passadas pesadas no telhado. Selena ergueu os olhos e s ento notou que havia uma escada encostada  parede 
da frente da casa. Algum estava descendo por ela. Primeiro apareceram umas botas enormes. Todas as crianas ficaram a observar e viram as pernas da cala jeans. 
Depois um cinto de carpinteiro e em seguida uma camisa de brim.
      Selena engoliu em seco. Paul estivera em cima do telhado o tempo todo. Devia ter escutado os comentrios que ela fizera. Chegando embaixo, ele pegou a escada 
e, com um gesto lento, levantou a cabea e olhou-a. Deu um sorriso cativante para ela. Fitou-a direto nos olhos e disse algo antes de sair carregando a escada:
      - Croc! Croc! fez ele, imitando o coaxar de um sapo.
      
      
      
      
      Captulo Dezessete
      
      Uma nova histria comeou a se formar na imaginao de Selena - uma histria antiga, mas ao mesmo tempo novinha em folha. Ser que Paul quisera dizer que ele 
era um prncipe disfarado? Isso ela j havia percebido.
      Cerca de uma semana atrs, ela se vira como uma pessoa perigosa e impulsiva - o que a deixara bastante incomodada. Agora achava-se determinada e prestativa. 
Naquele mometo teve certeza de que Paul tinha certo interesse por ela. Se no fosse mais nada, pelo menos curiosidade ele tinha. Isso veio confirmar aquele seu devaneio 
de que entre ela e o rapaz existia uma forte atrao, se  que no era apenas uma impresso sua.
      Cantarolando baixinho, ela continuou ajudando as crianas a completar seus trabalhos manuais. O sapo do Johnny acabou ficando meio desproporcional e com aparncia 
estranha. Contudo, para o garoto, isso no importava. Saiu mostrando-o para todo mundo, dizendo, todo orgulhoso, que Selena o ajudara a faz-lo.
      As crianas comearam a sair, e Selena recolheu todos os crayons e papis picados espalhados pelo cho. De instante a instante, dava uma olhada ao redor para 
ver se avistava Paul. Dessa vez, no queria perd-lo de vista.
      O diretor veio at a varanda e apertou-lhe a mo, agradecendo-lhe pelo trabalho realizado. Selena chamou-o para um lado, afastando-se de trs crianas que 
ainda se achavam por ali desenhando, e perguntou se poderia continuar indo  Highland House para trabalhar como voluntria.
      - Claro, replicou o Sr. Mackenzie. Ns gostaramos muito. Voc deve ter visto o quanto precisamos de gente trabalhando aqui. Meu sobrinho tem uma tima impresso 
de voc.
      Paul me elogiou?
      - Tambm tenho uma tima impresso dele! explicou Selena. E do Jeremy. A Tnia, namorada dele,  minha irm.
      - Ah ! exclamou o Sr. Mackenzie, com um jeito muito educado e cativante. Sua irm tambm est aqui?
      - No. Mas queremos muito convidar o senhor e o Paul para virem jantar conosco um dia desses, antes da viagem do Paul para a Esccia.
      - Ah, ele lhe contou que vai pra l?
      - No, foi Tnia quem me contou.
      - Ento temos de marcar para um dia qualquer da semana que vem, pois o Paul viaja daqui a nove dias. Sabia disso?
      Selena teve a sensao de haver recebido um murro na boca do estmago.
      - No. No sabia que a viagem dele era pra agora, disse a garota, pigarreando em seguida. Minha me disse que ligaria para o senhor para marcar. Mas tenho 
certeza de que poderemos combinar a visita para antes de ele viajar.
      - timo! Estou encantado de conhec-la, Selena. Pode vir aqui sempre que quiser. Ficaremos muito agradecidos com qualquer ajuda que voc puder nos dar.
      A garota acabou de recolher os papis picados. A maioria das crianas j havia sado. Restavam ali apenas suas duas fiis companheirinhas, Meruka e ngela, 
que agora estavam ajudando-a a arrumar as coisas. Com essa novidade a respeito de Paul fervilhando-lhe a mente, Selena no conseguia se concentrar em mais nada.
      - Voc vem amanh? quis saber Meruka.
      - O qu? Ah, no. Amanh, no. Vou vir aqui num outro dia. A vamos fazer mais trabalhos manuais, o.k.?
      - Voc conta outra histria com as figuras? indagou ngela.
      - , talvez. Voc gosta?
      A garotinha fitou-a com um olhar cheio de inocncia e acenou que sim.
      - Selena! gritou Ronny do ptio. J est na hora de ir embora! Est pronta?
      - No! respondeu ela meio aflita.
      Ainda no havia conversado com Paul.
      - Tenho de guardar estes negcios aqui, continuou a garota. Vou demorar uns minutinhos.
      - 'T bom. Vamos ficar esperando.
      Selena pegou os ltimos pedacinhos de papel picado e correu para dentro do prdio. Guardou o material no armrio, deu uma ajeitada no cmodo e partiu  procura 
de Paul. No o encontrou em parte alguma.
      Ele disse que estaria por a. E o que foi mesmo que ele falou na tera-feira quando pegou no meu brao? Foi algo sobre conversarmos.
      Deu uma ltima espiada no salo e afinal desistiu de procur-lo. Para que ela o visse hoje - ou em qualquer outra ocasio - seria preciso que acontecesse uma 
"coisa de Deus". Triste e decepcionada, Selena dirigiu-se para a camionete de Ronny em passadas largas. Sentou-se ao lado de Tre e manteve-se em silncio no trajeto 
at a pizzaria. E durante todo o tempo em que jantavam, ela se sentiu envolta numa nuvem de tristeza.
      Paul iria viajar da a uma semana. Como era possvel que tivessem conseguido se encontrar e ficar tantas horas prximos um do outro, mas ao mesmo tempo to 
distantes?
      Ronny conseguiu que Tre se abrisse um pouco e falasse sobre sua famlia e sobre o seu gosto por msica. Selena comeu apenas uma fatia de pizza e ficou pensando 
se sua me j tinha ligado para o tio de Paul, marcando uma data para virem jantar. Ronny foi lev-la em casa. Assim que chegaram, ela saiu correndo do carro, ansiosa 
para entrar e conversar com a me.
      - Espere a! gritou Ronny, seguindo-a at a escadinha da entrada.
      Ela se esquecera de que o rapaz geralmente ficava na casa dela s sextas-feiras. E eram apenas 20:30h. Era claro que ele queria entrar. Contudo isso no significava 
que ela teria de ficar dando ateno para ele o tempo todo.
      - Acho que os meninos esto l na saleta, informou Selena para Ronny assim que entraram.
      O pensamento da garota era ir procurar a me e comear a fazer os planos para o jantar com Paul e o tio.
      - Ei! disse Ronny no momento em que subiam a escada. No vim aqui para conversar com seus irmos.
      Selena parou e fitou o colega. Ele estava com a cabea ligeiramente inclinada e tinha uma interrogao no olhar. Com um gesto lento, ele levou a mo ao cabelo 
comprido, muito liso, e jogou-o para trs.
      - Eu queria conversar um pouco com voc, falou.
      - Agora? indagou Selena.
      De repente, ela se deu conta de que estava sendo muito mal-educada. Ronny sempre tivera pacincia para ouvir os desabafos dela. Ser que seria assim to difcil 
para ela fazer o mesmo com ele?
      - Quero dizer, corrigiu-se ela, pode esperar um pouquinho?
      - Claro, replicou o rapaz, dando seu sorriso meio torto. Vou esperar na saleta.
      - Obrigada! disse Selena.
      E em seguida, subiu o resto da escada de dois em dois degraus. Foi encontrar a me no quarto de V May. As duas estavam jogando Scrabble*
      ___________________
      * Scrabble - um joguinho que consta de se formar palavras com letras gravadas em pequenos blocos de madeira. (N. daT.)
      
      - Me, foi dizendo Selena quase sem flego, a senhora est sabendo daquela nossa idia de convidar o Paul e o Sr. Mackenzie para jantar, no est? O Paul vai 
viajar daqui a uma semana. Se formos convid-los, ento ter de ser amanh  noite, porque na semana que vem tenho provas finais todos os dias.
      - Calma, queridinha! interveio V May. Respira um pouco!
      - Liguei pra ele mais ou menos uma hora atrs, explicou mame. Marcamos para a prxima sexta-feira  noite.
      Selena sentou-se na beirada da cama de V May.
      - Na prxima sexta-feira.  daqui a uma semana. S vou v-lo na vspera da viagem dele. Tenho de arranjar um jeito. Preciso fazer alguma coisa. Tenho de descobrir 
um modo de dizer ao Paul que tenho orado por ele, de revelar-lhe o que sinto por ele.
      - Me ajuda aqui, queridinha, pediu V May. Estou com um j e no sei onde coloc-lo.
      Selena foi para perto da av, postando-se atrs dela. Ficou examinando as letras de que ela dispunha, pensando nas palavras que poderia formar. No havia como 
usar aquele j, mas a garota conseguiu formar uma palavrinha com outras trs letras, e livrou-se delas. Como V May agora tinha a ajuda da neta, o joguinho ficou 
mais gil e emocionante tambm.  que mame, a campe da famlia, agora encontrara uma oposio forte.
      Cerca de quarenta minutos depois, elas fizeram a contagem final. A me venceu com sete pontos de vantagem.
      - Acho que tenho de ir l ver os meninos, disse mame. J passou da hora de eles irem para a cama.
      Ao pensar nos irmos assistindo  televiso na saleta, Selena de repente, se lembrou de Ronny.
      - Ah, no! exclamou, levantando-se de um salto e descendo as escadas correndo.
      Entrou na sala intempestivamente, mas encontrou ali apenas o pai e seus irmos, atentos a uma fita de vdeo a que estavam acabando de assistir.
      - Cad o Ronny?
      - Foi embora agorinha mesmo, explicou papai. Algum problema?
      - Espero que no, falou Selena, saindo rapidamente.
      Dirigiu-se para a entrada da casa e ficou a olhar a rua, a ver se ainda avistava a camionete do colega. J devia estar longe. A garota ergueu a cabea para 
o cu e sussurrou:
      - Me perdoe!
      Ela ficara to chateada de Paul ter sumido e de no ter podido conversar com ele, mas agora fizera o mesmo com o Ronny. Seu colega dissera que queria bater 
um papo com ela. 
      Ocorreu-lhe ento que talvez fosse s ela quem estivesse com vontade de conversar com Paul. Ele mesmo no tinha interesse em falar-lhe. Era possvel at que 
ele a visse da mesma forma que ela via o Ronny - uma pessoa agradvel, mas incmoda. E em meio ao silncio da noite escura e vazia, ela deixou que as lgrimas escorressem, 
lgrimas que brotavam do fundo de seu ser.
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      Captulo Dezoito
      
      - Minha vida est se desmoronando! disse Amy para Selena, ao telefone, no dia seguinte.
      Selena se aprontava para ir trabalhar e no estava em condies de sentir muita pena da colega. Na noite anterior, suas emoes tinham estado agitadas pelo 
fato de no ter conseguido conversar com Paul e de ter se esquecido de Ronny. Por isso, passara a noite toda virando e revirando na cama. No estava de muito bom 
humor.
      - No vamos poder fazer o nosso jantar hoje, continuou Ainy, porque minha irm est muito gripada. Mame acha que no  legal a gente convidar os outros para 
virem  nossa casa quando tem algum doente.
      - Sua me tem razo, concordou Selena, estremecendo s de pensar na possibilidade de pegar gripe. A semana que vem vai ser muito cheia pra ns, Amy. Talvez 
seja melhor esperarmos as aulas terminarem.
      - , acho que vamos ter de esperar. Vou ligar para o Drake e dizer-lhe tudo. Espero que ele ento sugira que saiamos para jantar fora.
      - Para mim, est timo, replicou Selena. 
      Estava com um pouco de sentimento de culpa por ter ficado muito calada no dia anterior, na pizzaria. Fora ela prpria quem insistira para que convidassem o 
Tre. Depois, porm, ficara por demais absorta em seus pensamentos e no conversara muito. Seria bom se pudesse ver o Ronny essa noite e acertar tudo com ele. Com 
relao ao Paul, no poderia fazer nada, a no ser esperar at sexta-feira, no jantar. Por outro lado, poderia tambm tentar ir v-lo l na Highland House. Contudo 
ali no era um bom lugar para conversarem. Ento decidiu que iria pedir desculpas ao Ronny e, assim, poderia sentir-se melhor pelo menos no que dizia respeito a 
ele.
      Durante o dia inteiro, no trabalho, teve dor de cabea. Achou que fora causada pela noite mal dormida, somada  preocupao com as provas finais. Havia tambm 
a ansiedade que vinha abrigando depois que se reencontrara com Paul. Alm disso, de manho comera apenas uma banana j um pouco passada. Nem os pezinhos de canela 
do tabuleiro de "oferta queimada" haviam melhorado a situao. Jody ofereceu-lhe uns tabletes de vitamina B e de ginseng. Selena at pensou em tom-los, mas reconhecia 
que no se sentia bem. Era provvel que o remdio nem parasse no estmago.
      Assim que deu 16:00h no relgio da "barriga" da figura do urso, ela saiu e foi para casa. Que alvio pensar que poderia ir embora direto, j que haviam adiado 
o jantar da Amy. Nenhum de seus amigos ligara para ela no servio. Portanto no sabia se estavam planejando algum programa. Se estivessem, ela recusaria. O que ela 
mais queria naquele momento era tomar um banho quente, comer algo e cair na cama.
      Entretanto, assim que virou a esquina de sua casa, viu a camionete de Ronny parada em frente e sentiu um aperto no corao. Na carroceria do veculo, estava 
o enorme cortador de grama do colega. Avistou o rapaz no jardim, conversando com o pai dela. Ainda usava as roupas de trabalho e tinha na cabea um bon com a aba 
virada para trs. Ambos escutaram o barulho do motor diesel do fusca e se voltaram para olh-la. Os dois sorriram e lhe fizeram um aceno.
      A vontade de Selena era de "evaporar" para no precisar passar pela humilhao de pedir desculpas ao Ronny. Sabia que ele iria compreender perfeitamente o 
fato de ela t-lo abandonado no dia anterior. Era muito compreensivo. S que ela detestava a idia de ter de reconhecer que esquecera dele completamente.
      - Oi! gritou ela, batendo a porta do carro e esforando-se para dar um sorriso alegre.
      - Ei! falou o pai, notando que ela no trazia o costumeiro saquinho branco da loja. Hoje no sobraram pezinhos para ns?
      - Ah, ainda no contei? A D. Amlia resolveu doar tudo que sobrasse para a Highland House.
      - timo. Eles precisam mais do que ns, comentou o pai, batendo de leve na prpria barriga. Bom, gente, tenho de fazer uns servios l no fundo. D licena, 
Ronny. Te vejo depois.
      - Tchau, respondeu o rapaz e, virando-se para a colega, continuou: Voc est bem?
      Ele estava engraadinho com aquele bon virado e as pontas do cabelo louro, meio assanhado, aparecendo abaixo dele, Cheirava a grama aparada, e a cala dava 
a impresso de que levara um belo tombo.
      - Estou. Ronny, quero lhe pedir desculpas pelo que fiz ontem  noite.
      Ele no interrompeu sua difcil confisso, mas deixou que prosseguisse.
      - Nem sei o que dizer. Minha inteno era conversar com minha me e descer imediatamente. Mas a comecei a ajudar V May no joguinho dela e acabei nem vendo 
o tempo passar.
      Em vez de dar aquele sorriso tpico, sempre cordial, Ronny continuou srio. Selena percebeu uma leve expresso de mgoa em seu olhar.
      - Imaginei que devia ser algo de muito importante, disse o rapaz, com um tom ligeiramente mordaz. Olhe aqui, Selena, se voc no que eu venha  sua casa,  
s dizer. Achei que estvamos nos tornando mais amigos, mais chegados um ao outro. Agora no sei o que est acontecendo. Se estou lhe incomodando, por favor, prefiro 
que diga. 
      - No, voc no me incomoda, no, Ronny. De modo nenhum. Nem pensei nisso. A questo  que...
      Ela no sabia ao certo como poderia falar-lhe sobre os sentimentos fortes que nutria com relao a Paul. E talvez ele at compreedesse. Ronny era uma pessoa 
que sabia escutar os outros e guardar segredo, melhor at do que Amy. Mesmo assim, era estranho dizer a um rapaz que a gente gosta de outro.
      - Que o qu? indagou ele, mudando o peso do corpo de um p para outro.
      - Tem acontecido muita coisa nos ltimos dias. Sei que tenho tido umas atitudes estranhas. Por favor, no veja isso como uma mudana no nosso relacionamento. 
Preciso que voc tenha pacincia comigo mais esta semana e uns dias. 
      O rapaz ficou uns instantes calado como que procurando absorver o que ela dissera.
      - , d pra ter, disse ele afinal.
      - timo! exclamou Selena aliviada e sorrindo para ele. Muito obrigada!
      - Parece que nosso jantar na casa da Amy foi cancelado, n? comentou Ronny. Vim aqui para ver se voc queria fazer alguma outra coisa.
      De repente, Selena teve uma sensao clida e suave no corao. Na verdade, ele estava convidando-a para sarem. Que gentileza!
      - Meu plano era vir pra casa e descansar, replicou ela. Estou muito cansada e ainda tenho de digitar meu relatrio sobre nosso trabalho na Highland House. 
Se quiser ficar aqui para jantar, acho que est bem para meus pais.
      Ronny pensou um pouco, parecendo avaliar as opes que dispunha.
      - Acho que vou seguir seu belo exemplo, disse o rapaz, agora com seu sorriso caracterstico de volta ao rosto. O melhor que tenho a fazer  ir pra casa e terminar 
meu relatrio tambm. Talvez possamos combinar algum programa para o prximo final de semana, s ns dois, depois de passada essa agitao das provas finais. Que 
tal sexta-feira?
      - Claro! disse Selena prontamente.
      Era agradvel perceber que tudo estava resolvido entre ela e o colega. Ele se virou para ir embora e foi a que a garota se lembrou de que Paul e o tio viriam 
jantar na sexta-feira.
      - Ah, sexta-feira talvez eu no possa. Vamos ter visita aqui para jantar. Mas podemos sair no sbado, no podemos?
      - Ento sbado, repetiu Ronny em tom firme, parecendo pregar uma taxinha nas palavras de Selena para afix-las em algum lugar. Creio que no sbado  noite 
tem um show de um conjunto gospel.
      - Beleza! exclamou Selena. Acho que vai ser timo! Ento te vejo na segunda-feira.
      Em seguida, ela fez um aceno de despedida e caminhou direto para a banheira.
      Selena s viu Ronny na segunda-feira, pouco antes de apresentarem o relatrio do trabalho perante a classe.
      - Voc fala primeiro, disse-lhe o rapaz e concluiu brincando: Deixemos o melhor para o fim.
      Selena foi  frente e deu seu relatrio sem qualquer acanhamento. No se sentia constrangida de falar em pblico, como ocorria com alguns de seus colegas. 
No final, fez o seginte comentrio:
      "Para mim, o melhor que aconteceu nesse trabalho na Higland House foi que descobri que podemos fazer muitas coisas para cumprir o mandamento de Cristo, que 
encontramos em Lucas 6:31."
      Olhou para a folha de papel e leu:
      "Como vocs querem que os outros lhes faam, faam tambm vocs a eles."
      A seguir, encarando a classe, Selena continuou:
      "Existem muitos necessitados por a, e podemos socorr-los de vrias maneiras, seja distribuindo alimentos ou dando-lhes um pouco de nosso tempo. Eu pretendo 
continuar realizando esse trabalho voluntrio na Highland House. E para encerrar, quero citar o texto de Mateus 25.37-40: 'Ento, perguntaro os justos: Senhor, 
quando foi que te vimos com fome e te demos de comer? Ou com sede e te demos de beber? E quando te vimos forasteiro e te hospedamos? Ou nu e te vestimos? E quando 
te vimos enfermo ou preso e te fomos visitar? O Rei, respondendo, lhes dir: Em verdade vos afirmo que, sempre que o fizestes a um destes meus pequeninos irmos, 
a mim o fizestes.'"
      Selena iniciara seu relatrio falando a respeito de Johnny e do sapo de papel. Ento encerrou com as seguintes palavras:
      "Talvez possamos dizer que o Johnny  um desses 'pequeninos irmos'. Ento aprendi que ajudando a esse garoto, estou servindo a Cristo."
      Em seguida, ela se dirigiu para sua carteira, mas antes mesmo que se sentasse a turma se ps a aplaudi-la. Ronny se levantou batendo palmas e assobiando. Selena 
se virou para ele e fez um gesto com a mo para que se sentasse e parasse com aquele barulho. Interiormente, porm, tinha de reconhecer que gostava do jeito como 
ele brincava com ela.
      - Excelente apresentao, Selena, disse o professor Rykert, caminhando para a frente. Agora vamos ouvir o relatrio do Tre, continuou ele, fazendo um aceno 
de cabea para o rapaz, indicando-lhe que fosse  frente.
      Selena teve pena do colega. Ele estava suando e dava a impresso de que preferia levar uma surra a ir falar diante da classe.
      - Fui trabalhar na Highland House, principiou o rapaz, tremendo e engolindo em seco. Ajudei no trabalho com as crianas e toquei violo. E ouvi a histria 
do "filho prdigo".
      Ele demonstrou certa dificuldade para pronunciar a palavra "prdigo", e mais uma vez Selena desejou ter escolhido outra histria. Tinha certeza de que as crianas 
no a haviam compreendido bem.
      - Eu entendi muito bem a questo dos porcos, falou Ter.
      Uma onda de risadinhas varreu a classe.
      - No quero levar esse tipo de vida, continuou o rapaz. Ento l, naquela hora, tomei a deciso de voltar para o Deus Pai que est me esperando.
      A turma ficou em profundo silncio. Todos procuiavam assimilar corretamente o que ele dizia. O Prof. Rykert aproximou-se do aluno e disse:
      - Voc est querendo dizer que tomou a deciso de entregar sua vida a Deus?
      Ele acenou que sim e desfez a tenso que estampava no rosto ao dizer:
      - Meus amigos me mostraram Jesus.
      E aqui ele olhou para Selena e em seguida para Ronny e acrescentou:
      - Tambm quero conhecer Jesus.
      A garota virou a cabea para fitar Ronny. Seu colega estava boquiaberto, os olhos meio fechados, numa expresso de surpresa. Voltando-se para a frente, para 
o Tre, Selena sentiu lgrimas brotando em seus olhos e quase a escorrer-lhe pelo rosto.
      Ento o Tre se tornou crente? Ele compreendeu a histria do "filho prdigo" e daqueles porcos? No acredito! Que maravilhosa "coisa de Deus"!
      O Prof. Rykert parecia estar emocionado e sem fala. Chegou perto do aluno e ps a mo no ombro dele. 
      - Quero orar por voc, Tre, disse.
      E a seguir, orou. Fez uma orao profunda, significativa, na qual agradeceu a Deus pelo acontecido.
      Antes que ele terminasse, a campainha tocou, sinalizando o final da aula. Todos aguardaram em silncio. O Prof. Rykert disse "Amm". Muitos dos alunos, em 
vez de sair da sala, foram  frente  cumprimentar o Tre. O rapaz parecia meio surpreso, sem entender bem toda aquela ateno que recebia.
      - Salva pelo gongo! exclamou Vicki quando saa em companhia de Amy e Selena. Eu teria de fazer minha apresentao depois do Tre. Mas nada que eu dissesse depois 
daquilo pareceria interessante.
      - Ele no falou aquilo para tirar boa nota, interveio Amy.
      - Sei disso, replicou Vicki. Calma, eu estava s fazendo uma piadinha.
      Em seguida, ela se virou para Selena:
      - Voc e o Ronny vo ao concerto do Trio Sierra, no sbado?
      - Concerto de quem? indagou Amy. Selena vai num concerto no sbado?
      -  de um grupo feminino, o Trio Sierra. No conhece?
      - No.
      - Nem eu, interveio Selena. Humm, vai ser timo! Agora quero ir mesmo. Ronny comentou algo comigo sobre esse grupo. E agora quero ir, mesmo que ele no queira 
mais. Quer ir conosco, Amy?
      - Devo comear a trabalhar no restaurante de meu tio neste sbado, explicou a garota. E como fica o nosso jantar, Selena? Indagou ela fazendo beicinho. No 
amos adi-lo por uma semana?
      - Vamos deix-lo pra daqui a duas semanas. Quero muito ir a esse concerto.
      - Tenho alguns ingressos a mais, disse Vicki, e se voc quiser, posso pass-los pra voc. Vou com o Mike, e se voc e Ronny desejarem, podemos ir os quatro 
juntos.
      Nesse momento, Selena se deu conta de que os outros viam a ela e ao Ronny como namorados, e no apenas como amigos. E no tinha bem certeza do que ela prpria 
achava disso.
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      Captulo Dezenove
      
      Mame fez carne assada com batatas para o jantar de sexta-feira. E a casa ficou inundada pelo aroma agradvel da comida. Iria servir tambm vagem, salada e 
po feito em casa. De sobremesa, teriam torta de ma com sorvete de creme. Na opinio de Selena, o cardpio era perfeito.
      Por volta de 17:30h, a garota ainda no decidira o que iria vestir. Essa talvez fosse a ocasio em que a escolha do vesturio era a mais difcil pra ela. E 
pela primeira vez na vida, parecia que Tnia estava entendendo o problema.
      - Acho que voc deveria usar aquela saia com o coletinho bordado, disse a irm.  um conjunto legal, que combina com sua personalidade.
      - Ser? falou Selena, examinando as outras cinco opes que colocara sobre a cama. Eu estava com essa roupa no dia em que ele me viu, na chuva, carregando 
os lrios. Estava completamente ensopada.
      - Ah,  por isso que o Jeremy diz que o Paul a chama de "princesa dos lrios"?
      Selena fez que sim, recordando-se da carta gozadora que Paul lhe escrevera mais tarde, referindo-se quela situao humilhante.
      - Ser que este vestido aqui no seria melhor? indagou, pegando um longo cor de creme, no estilo camponesa. E meus colares.
      Tnia abanou a cabea.
      - Voc fica melhor com algo de cor forte perto do rosto, disse. Este vestido parece mais uma camisola. Confie em mim. A saia com o coletinho fica melhor. E 
pode usar os colares tambm.
      Selena concordou afinal. Sua irm tinha razo. Na verdade, aquele era o conjunto de que mais gostava. Tnia usava uma saia azul claro e um bluso, com os quais 
j fora trabalhar pela manh. Hoje fora seu ltimo dia na loja. Seu pedido de transferncia para a Nordstrom de San Diego fora aprovado, e ela estaria mudando-se 
para l dentro de uma semana, no mais tardar, duas. E o mais estranho em tudo isso era que, justamente agora, as duas estavam comeando a apreciar mais a companhia 
uma da outra. Tnia at convidara a irm para fazer com ela a viagem de carro para a Califrnia e depois voltar de avio. Selena ainda no decidira se iria ou no. 
Queria deixar passar primeiro as provas finais e esse jantar com o Paul.
      Agora, finalmente, a sexta-feira chegara. No havia mais trabalhos nem relatrios para entregar. S lhe faltava fazer mais uma prova final na semana seguinte 
e as aulas terminariam. O importante, porm, era que da a alguns minutos Paul chegaria em sua casa, e ela poderia fit-lo bem nos olhos. Iria dar um jeito de arranjar 
uma conversa em particular, para dizer-lhe o quanto gostava dele. Diria que havia orado por ele fervorosamente e depois...
      Selena no sabia o que aconteceria depois. Talvez eles pudessem se corresponder durante as frias. Era possvel at que dessem alguns interurbanos. E quando 
ele regressasse, ela j teria quase dezessete anos e iria iniciar o ltimo ano do segundo grau. A Paul j no a acharia to nova.
      Enfiou no brao a ltima pulseira, jogou o cabelo para trs e deu mais uma olhada no velho espelho oval sobre a cmoda. Queria ver se no havia borrado a maquiagem 
que Tnia fizera com tanta habilidade. Notou que o rmel estava bem discreto. Antes disso, ela s deixara a irm maqui-la uma vez. Fora no primeiro dia em que Ronny 
viera  sua casa. Mesmo naquela ocasio, naquele seu "primeiro encontro", ela estivera pensando em Paul, querendo que o visitante daquela noite fosse ele, e no 
seu colega. E agora esse desejo se realizava. 
      Descendo a escada em passos leves em direo  cozinha, Selena sorria consigo mesma. Sentia-se radiante de felicidade. Engraado como agora compreendia bem 
a empolgao que Tnia demonstrava por Jeremy. E pelo fato de Paul e Jeremy serem irmos, a situao se tornava ainda mais interessante. Agora as duas tinham mais 
pontos em comum.
      No momento em que descia o ltimo degrau, a campainha da porta tocou. Selena correu para atender, mas antes de abri-la, fechou os olhos e respirou fundo.
      - Ronny! exclamou surpresa.
      - Ei! Voc est bonita! disse o rapaz.
      De repente, o rapaz se lembrou e bateu a palma da mo na testa.
      - Ah, ! Vocs vo ter visitas hoje, n?
      Nesse momento, um carro parou do outro lado da rua. Selena mordeu o lbio inferior e tentou pensar bem rapidinho em algo para dizer.
      - So eles? indagou Ronny, olhando para o cara que sara do carro.
      O rapaz vestia cala jeans e camisa branca de manga comprida. Seu cabelo castanho, anelado, estava penteado para trs.Trazia nas mos um pequeno buqu de lrios 
amarelos. Selena achou que seu corao iria saltar para fora do peito e descer a escadinha da entrada correndo para cumpriment-lo.
      - Ei,  o Paul!  ele a visita? disse Ronny, com uma expresso de mgoa no olhar.
      - Paul e o Sr. Mackenzie, o tio dele, respondeu Selena prontamente. O namorado da Tnia  irmo do Paul.
      - Ah, ? No sabia. Oi, Paul! exclamou Ronny, saudando-o com um forte aperto de mos. Como vo as coisas?
      Em seguida, dando uma olhada para os lados, indagou:
      - O seu tio no veio?
      - Ele mandou pedir desculpa, explicou educadamente Paul, fitando Selena. Tinha pouca gente l na Highland House para ajudar a servir o jantar e ele teve de 
ficar. Espero que no achem ruim por eu ter vindo assim mesmo.
      - Claro que no! disse Selena, olhando para as flores.
      - Trouxe para V May, explicou o rapaz, estendendo-lhe o buqu.
      - Naturalmente, disse a garota. Entre.
      Selena pegou os lrios e abriu a porta para Paul. Ronny tambm entrou. A garota engoliu em seco sem saber direito como agir. Se seu colega ficasse ali para 
jantar, a noite no seria mais como ela tanto sonhara. E obviamente a me o convidaria para ficar, j que o Sr. Mackenzie no viera.
      Selena pensou na hiptese de cham-lo  saleta e lhe falar sobre suas expectativas e anseios com relao quele jantar. Certamente ele compreenderia que aquela 
noite era muito importante para ela e, com um gesto simptico, iria embora. Ronny faria isso por ela. Tinha certeza de que ele faria. Agora teria apenas de descobrir 
um meio de explicar-lhe tudo sem ferir seus sentimentos. Parecia que ultimamente ele estava muito sensvel.
      - Ento tinha pouca gente, comentou Ronny. Eu poderia ir l ajudar. Acha que, se eu fosse l, seu tio poderia vir para c?
      Selena teve vontade de dar um abrao apertado no amigo por ser to amvel e se mostrar sensvel ao problema. E ela no precisara dizer nada. Que rapaz sensacional! 
Vai, Ronny, vai!
      - Tenho certeza de que ele apreciaria muito essa oportunidade de dar uma sada, disse Paul. Obrigado, Ronny. 
      O rapaz deu uma olhada rpida de Selena para o colega, como se estivesse tentando descobrir o que havia entre eles, e depois concluiu:
      - Isso seria maravilhoso!
      - Legal! exclamou Ronny. Ento at mais!
      Ele tambm deu uma olhada longa para Selena, e a garota pensou se o colega no estaria fazendo o mesmo que Paul - procurando enxergar sinais ocultos de um 
relacionamento entre ela e o rapaz.
      - Obrigada, Ronny! disse a garota, sorrindo carinhosamente , mas sem exagerar.
      Seu melhor sorriso estava reservado para Paul. E assim que Ronny saiu, ela estampou-o no rosto, nos lbios perfeitos, como um gesto de boas-vindas dirigido 
somente a ele.
      Captulo Vinte
      
      P aul encantou toda a famlia, e principalmente Tnia, que ficava s dizendo:
      - Puxa! Voc falou isso igualzinho ao Jeremy!
      O tio dele, o "Tio Mac", como o rapaz o chamava, chegou no momento em que estavam se sentando  mesa espaosa da sala de jantar. E ficou constantemente elogiando 
Ronny, que fora  misso e o substitura, liberando-o para vir jantar. O Tio Mac sentou-se ao lado de Paul. Selena estava do outro lado da mesa, bem na direo do 
rapaz. Afinal o pai de Selena fez sinal de que todos dessem as mos para orar. A garota fechou os olhos, pensando em como seria bom se estivesse ao lado do rapaz, 
em vez de se encontrar entre Tnia e Kevin. Se estivesse, iria segurar na mo forte dele.
      Houve vrios momentos durante o jantar em que, ao erguer o rosto, teve a impresso de que ele estivera olhando para ela. Obviamente, assim que o fitava, ele 
desviava o olhar. Selena estava ansiosa para ter uma chance de conversar com ele a ss. Contudo ainda no sabia como conseguiria isso.
      V May no escondia sua admirao pelo rapaz. Ela simplesmente adorou os lrios que ele trouxe para ela; e fez questo de coloc-los no centro da mesa.
      No momento em que mame e Tnia serviam a sobremesa, Paul virou-se para o pai de Selena e disse:
      - Eu queria lhe pedir um favor. Alis, Jeremy me pediu que fizesse um favor para ele.
      - Tudo bem, replicou papai, antes mesmo de saber do que se tratava.
      - Ser que, aps o jantar, posso sair com a Tnia e a Selena para irmos tomar um caf?
      Selena teve a sensao de que o corao iria sair-lhe pela boca. Que maneira singular de comear um "namoro"! Ela adorou!
      - Se elas quiserem, para mim, est bem.
      Paul olhou primeiro para Selena. De algum modo, a garota conseguiu subjugar suas emoes que estavam totalmente agitadas e limitou-se a dar um sorriso, ao 
mesmo tempo em que acenava que sim. Tnia continuou a servir a sobremesa, mas em seu rosto estampou-se um sorrisinho maroto.
      Uma hora depois, quando se dirigiam para o centro, ela ainda sorria.
      - Vocs tm algum lugar a que gostariam de ir? indagou Paul. O Jeremy disse, Tnia, que voc tinha pensado em ir a um certo restaurante.
      A jovem falou de um caf que ficava numa colina em West Portland e ensinou ao rapaz como se chegava l. Eles estacionaram e entraram. Foram para uma mesa redonda, 
pequena, que ficava em frente de uma janela, atravs da qual se viam gernios vermelhos plantados numa caixa. O local estava bem silencioso naquela hora. Havia poucos 
clientes. Selena teve a sensao de que, subitamente, tinham sido transportados para outro pas.
      - Sabe de uma coisa? falou Tnia ainda de p, assim que Selena e Paul se sentaram.  possvel que eu no tenha outra oportunidade de vir aqui antes de me mudar 
para a Califrnia. E nesta rua, h algumas lojas que ainda esto abertas. Ento, vocs dois vo comeando a que volto j.
      E saiu rapidamente porta a fora. Selena baixou os olhos para a mesa posta, apertando as mos.
      - Est parecendo que isso  armao, disse em voz suave.
      Paul no respondeu, esperando que ela levantasse o rosto para ele.
      - , parece que sim, disse ele afinal. Quer tomar alguma coisa?
      - Ser que aqui eles servem ch de ervas? indagou  Selena.
      - Vamos perguntar, disse o rapaz, erguendo a mo e chamando o garom.
      Nesse instante, tendo Paul bem  sua frente, sentindo o forte aroma de caf no ar e vendo aproximar-se um garom com um grande bigode, a garota achou que tudo 
no passava de um sonho. Era uma breve excurso a Paris e se achavam num caf do Champs Elises, onde tomavam uma xcara de capuccino. S que, neste sonho, ela estava 
com os olhos abertos, e no queria fech-los. Tinha medo de que tudo desaparecesse como por encanto.
      - , quero um caf expresso, disse Paul. E vocs tm ch de ervas?
      O garom fez um aceno de cabea e saiu.
      - Voc quer comer alguma coisa, um palito de chocolate ou algo assim?
      Selena entendeu que ele se referia a um daqueles biscoitos compridos, recobertos de chocolate.
      - No, obrigada, respondeu ela. Acho que comi bastante no jantar.
      - Eu tambm, disse o rapaz. Alis, o jantar estava timo. Sua famlia  maravilhosa, Selena. Tudo que Jeremy disse confere.
      - Ah, ? E o que foi que ele disse?
      - Bom, principiou ele, recostando-se na cadeira, disse que voc surfa muito bem.
      A garota sorriu.
      - Disse tambm que voc  uma pessoa de personalidade forte, se bem que isso no era novidade para mim.
      O garom voltou com a xcara grande de caf para o Paul e uma vasilhinha de gua quente com uma xcara combinando. Colocou diante da garota uma cestinha com 
vrios saquinhos de ch para que ela escolhesse o que desejasse. Em seguida, virou-se para sair.
      - Vocs tm mel? indagou Selena antes que ele se fosse.
      - Jeremy falou tambm que voc  uma forte intercessora, guerreira na orao.
      Selena sentiu que chegara o momento que ela estava aguardando. Colocou o saquinho de ch de amora silvestre na gua fervente e se ps a relembrar as frases 
que ensaiara para dizer a ele. O garom chegou com o mel e ela ficou esperando que ele sasse, guardando as frases certinhas na ponta da lngua.
      - Como  mesmo aquele ditado? "Todo guerreiro  uma criana"? comentou Paul, bebericando seu caf.
      Ele fitou a garota com uma expresso que Selena conhecia muito bem. Era a mesma que Wesley, seu irmo mais velho, lhe dirigia vez por outra. Lembrava um tapinha 
na cabea, um gesto carinhoso que um irmo mais velho tem para com um mais novo quando este faz algo engraadinho.
      Selena sentiu como se o mundo tivesse parado de repente. Era como se lhe tivessem tirado o ar dos pulmes.
      Ento ele acha que sou uma criana, uma garota bobinha! No tem nenhuma das idias romnticas que eu tenho com relao a ele!
      Desse modo, tudo mudava. De forma alguma poderia abrir o corao para ele e dizer-lhe o quanto batalhara por ele. Alis, ele no parecia interessado em saber 
que, quando ele estava desviado, ela suplicara a Deus por ele, para que o Senhor o trouxesse de volta aos seus caminhos.
      - Meu irmo disse ainda... principiou ele e aqui fez uma pausa, sorrindo com ar de compaixo... que voc curte uma paixozinha por mim.
      Selena ficou paralisada. Sentiu a respirao ofegante. O rosto ardia como se fosse uma lmpada prestes a explodir.
      Uma paixozinha por voc?  isso que voc acha que sinto? Meus sentimentos no passam de um amorzinho infantil, como de um cachorrinho pelo dono, um adulto 
maduro e sbio? Ah, que arrogncia!
      Agora ela no sabia mesmo o que dizer. Por que Tnia a deixara ali e sara? Ser que ela armara tudo isso? Ser que sua irm e Jeremy queriam zombar dela?
      Sua vontade era de se levantar e derrubar a mesa toda em Paul. Entretanto resistiu ao impulso. Ficou olhando para as prprias mos e preparando o seu ch. 
Bem devagar, ps-se a remex-lo. Queria acalmar-se para no dar uma resposta da qual viesse a arrepender-se depois. Dessa vez, no iria agir impulsivamente. Alis, 
isso s serviria para demonstrar que ela realmente era imatura. Paul permaneceu em silncio, aguardando sua resposta, segurando a xcara com as duas mos.
      - Sabe de uma coisa? disse Selena, largando a colherinha e tomando um golinho do ch.
      Paul parecia estar com a ateno presa a ela, querendo ouvir o que ela diria. A garota assumiu um ar bem sereno e adulto e continuou:
      - Acho que Deus coloca diversas pessoas em nossa vida, em pocas diferentes, para nos ensinar muitas lies.
      Sua inteno fora dizer algo bem profundo, mas afinal aquilo lhe pareceu uma repetio. Tomou outro golinho de ch e ergueu o rosto para o rapaz, para que 
ele constatasse que no havia lgrimas em seus olhos.
      - Parece que Deus nos aproximou um do outro, por um breve perodo de tempo, para que eu pudesse aprender o seguinte: ele realmente atende as nossas peties.
      O rapaz pareceu espantado com a reao dela. Ele j a fitara com essa mesma expresso antes - no aeroporto de Londres. Obviamente no era isso que esperava 
que ela dissesse.
      - Voc agora est bem mais perto de Deus do que na poca em que nos conhecemos, no ? comentou ela.
      - , respondeu o rapaz, com um aceno afirmativo.
      - E agora vai passar as frias na Esccia para trabalhar na miso de seu av. Est caminhando em direo oposta  que estava em janeiro.
      Paul concordou novamente.
      - No  s para passar as frias l, corrigiu ele. Vou passar um ano. Vou estudar numa universidade em Edimburgo.
      Selena sentiu um aperto no corao. Embora ele houvesse se referido aos sentimentos dela como uma "paixozinha" infantil, aquela notcia a feriu bem no fundo 
de seu ser. Uma coisa era ele estar fora durante as frias; outra bem diferente era passar um ano longe.
      - Espero que tudo d certo para voc, disse a garota, esforando-se para dar um dos sorrisos que guardara somente para Paul. Estou feliz porque nossos caminhos 
se cruzaram naquela ocasio.
      Teve vontade de acrescentar que agora eles estariam circulando em rbitas diferentes, mas achou que tal afirmao iria ficar parecida com as frases de fico 
cientfica que a Amy citava.
      Inclinou-se ligeiramente para a frente e tomou a iniciativa de tocar de leve no brao dele. Fitando-o diretamente nos olhos, procurando atingir sua alma, ela 
disse em voz sussurrada:
      - Paul Mackenzie, Deus colocou a mo dele em voc. Ele far coisas extraordinrias em sua vida.
      O rapaz no se moveu. Continuou com os olhos presos nos da garota.
      - Obrigado! falou afinal em voz baixa e rouca.
      A expresso levemente irnica que ele mantivera no rosto o tempo todo agora parecia ter-se esvado por completo.
      - Agradeo tambm por ter orado por mim, prosseguiu ele. Continue orando.
      Selena no respondeu imediatamente. Parou para pensar na promessa que iria fazer. Ela levava essa questo muito a srio, embora tivesse a impresso de que 
ele, no. Ser que estava disposta a orar por Paul, mesmo sabendo que ele ia morar em outro lugar? Ou que poderia se casar com outra pessoa? Iria orar a despeito 
do que ele fizesse? E mesmo que nunca mais o visse? E ser que cumpriria fielmente o compromisso assumido, mesmo sabendo que o envolvimento emocional que tinha com 
ele era apenas de sua parte?
      - Est bem, disse ela, ainda fitando-o nos olhos. Vou continuar orando por voc.
      
       
      
      Captulo Vinte e Um
      
      Selena dormiu muito pouco naquela noite. Ficara a virar e revirar na cama. Tinha conversado com Tnia at depois de meia-noite, procurando algumas explicaes 
para os acontecimentos. A irm confessara que ela e Jeremy haviam de fato armado tudo. A esperana deles era que Selena e Paul pudessem conversar livremente, de 
corao aberto, para ver o que aconteceria.
      Agora Selena achava que fora muito bom no ter aberto o corao para Paul, pois o rapaz deixara bem claro que no tinha interesse nela. Se tinha, pelo menos 
no era no mesmo nvel que ela, que cultivara pensamentos romnticos a respeito dele.
      Ao compreender isso, a garota experimentou uma forte dor emocional. Sentiu-se machucada interiormente, num ponto da alma que ela desconhecia - uma emoo profunda 
e sensvel. E estaria disposta a dedicar todo o seu amor a Paul, se ele o quisesse. Contudo ele no queria.
      Ento, em vez de deixar extravasar essas intensas emoes femininas, Selena as encerrou dentro de si mesma. Estava extremamente envergonhada de haver interpretado 
como sinal de interesse as atitudes e os atos de Paul. Ele havia escrito cartas muito expressivas para ela. Por diversas vezes, olhara-a fixamente, como se estivesse 
procurando ver o prprio reflexo nos olhos dela. E por fim fizera aquele cmico "croc-croc" na Higland House. E em nenhum desses gestos, ele tivera a inteno de 
comunicar que nutria por ela um sentimento especial.
      E na ltima hora que passaram juntos, Paul tambm no dera mais nenhuma demonstrao de interesse. Ele terminou de tomar seu caf, e ela, o seu ch. O rapaz 
pagou a conta e os dois saram. Estava caindo uma chuvinha leve. Ficaram parados debaixo do toldo listrado, ao claro dos postes da rua. Achavam-se prximos um do 
outro, mas permaneceram em silncio.
      Selena olhou para os gernios com ar distrado e comentou:
      - Eles so do tipo Marta Washington. Quero dizer, os grinios. So os que minha me mais gosta.
      Paul fez um aceno simptico. A garota se sentiu ridcula falando de flores num momento como aquele. Havia pensaso que ocorreria algo entre ela e Paul; e que 
iria abrir-se para os dois um mundo de felicidade. Na realidade, nada acontecera.
      Instantes depois, Tnia chegou e entrou no carro, falando sem parar sobre uma promoo de batons que encontrara - do seu batom predileto. E em seguida, voltaram 
para casa.
      Paul acompanhou as duas at a porta, e Tnia abraou-o ao se despedir.
      - Espero que tenha bons momentos l na Esccia, disse ela. Estou to feliz de t-lo conhecido antes de voc viajar!
      - Tambm lhe desejo um ano maravilhoso, falou Selena, conseguindo dar mais um sorriso para ele. Tchau, Paul.
      - Tchau, respondeu ele. Deus abenoe vocs!
      Ele fitou Selena direto nos olhos uma ltima vez, bem debaixo da lmpada da varanda. Depois virou-se e, com passadas largas, voltou para o carro. Ligou-o, 
arrancou e foi embora. Pronto, acabou-se. Ele se fora. Sara da vida dela para sempre.
      Quando as duas conversavam sobre o assunto, j deitadas, Selena conseguiu dar uma explicao muito certinha e bem espiritual para o fato de eles se haverem 
conhecido. Ento disse  irm o que j dissera a Paul. Eles tinham tido contato por um breve perodo de tempo. Por causa desse relacionamento, ela aprendera a interceder 
por algum, a orar com persistncia. E no fora s isso. Aprendera tambm a travar batalha espiritual em favor dele. E afirmava - quase sem emoo alguma - que, 
para aprender essas lies, valera a pena passar o que passara.
      Tnia lhe pediu desculpas, dizendo que nunca imaginara que tudo iria acabar daquela maneira. Estava convencida de que Selena e Paul poderiam perfeitamente 
manter um relacionamento  distncia, assim como ela e Jeremy mantinham. S que, para Selena, no dera certo.
      A garota olhou para o relgio. Eram 5:27h. Levantou-se silenciosamente e calou o chinelo felpudo. Pegou a Bblia e o dirio. Caminhando bem de leve, desceu 
para o escritrio. Ali se ps mais uma vez a orar por Paul, pedindo a Deus que o protegesse nesse dia em que estaria preparando-se para viajar. Da a algumas horas, 
ele deveria partir para a Esccia.
      Abriu a Bblia e seus olhos deram com um marcador de pginas que pegara em uma livraria evanglica. Nele estava impresso um versculo de 2 Corntios e um comentrio: 
"Ele pe um pedao do cu em nosso corao para que no nos contentemos com menos".
      " isso mesmo", escreveu ela no dirio. "Quero que venha o reino de Deus na minha vida e que a vontade dele se faa na terra como no cu. Desejo o que Deus 
tiver de melhor para mim. Pelo menos creio que desejo. Quero desejar isso. Ento, vou guardar todos esses tesouros em meu corao. So 'pedaos do cu', e no vou 
me contentar com algo inferior. No seicomo vou explicar isso em relao ao Paul. S sei que quero que ele tambm receba o melhor que Deus o ver tiver para ele. 
, no foi legal naquela ocasio quando ele estava se contentando com algo que no era o melhor para ele."
      Respirou fundo e depois continuou escrevendo.
      "Esse perodo da minha vida est encerrado. Terminou essa fase de ficar s querendo saber se ele sentia algo por mim, como eu sentia por ele. Ele foi embora. 
Senhor, entrego-te esse meu relacionamento. No permita Pai, que algum dia eu me contente com algo que no seja o melhor que o Senhor designou para mim."
      Agora era ela que se sentia como o "filho prdigo". Tinha se deixado levar por sonhos desordenados a respeito de Paul, que acabaram dando em nada. Nesse momento, 
estava de volta aos braos do Pai celeste, o lugar mais seguro que existe. No era isso que estava escrito na placa da Highland House? Esforou-se para lembrar a 
frase completa e depois registrou-a no dirio. "Um lugar seguro para se recomear a vida." Releu a frase e em seguida acrescentou: "Nos braos do Pai celeste".
      Durante todo o dia, no trabalho, Selena sentiu uma calma e um uma paz at estranhas. Ronny deu uma passada l e lhe contou como achara bom ajudar a servir 
o jantar na Highland Housee, na noite anterior. E novamente ela lhe agradeceu por haver substitudo o Tio Mac.
      - No precisa me agradecer, disse o rapaz. Passei timos momentos. Vamos voltar l um dia desses? Eu gostaria de ajudar aquele povo ali.
      - Eu tambm, concordou Selena.
      - Voc quer que eu venha busc-la para o show hoje  noite?
      Uma vez mais a garota se esquecera de que tinha um compromisso social. Estava com um pouco de sono, mas estivera tambm desejosa de ouvir aquele grupo.
      - Claro, replicou. E ser que o Mike e a Vicki no gostariam de ir conosco?
      - J perguntei ao Mike. Ele disse que vo jantar fora antes, ento combinei de nos encontrarmos com eles na porta do teatro. Tem muita gente l da escola que 
vai tambm. 
      - Humm, parece que vai ser timo! exclamou Selena, senttindo-se mais reanimada aps a noite emocionalmente estressante. Ento te espero l em casa.
      - Legal. Vou passar l por volta de 18:30h.
      Quando ele chegou, Selena ainda no estava pronta. Depois que voltara do trabalho, resolvera tirar um cochilo e acabara caindo no sono. Acordou com a me chamando-a, 
dizendo-lhe que Ronny chegara. O rapaz estava l embaixo, jantando com a famlia. Ele dissera que os dois iriam a um show.
      A garota saltou da cama e, falando depressa, foi dando os detalhes para a me, ao mesmo tempo em que se aprontava. E com isso tambm ficou totalmente desperta. 
Quinze minutos depois, os dois j estavam a caminho do concerto. A camionete dele cheirava a lama e grama cortada. Achou timo estar com uma cala jeans, caso houvesse 
o perigo de manchar a roupa no assento do carro.
      O estacionamento j estava cheio quando chegaram, e tiveram de estacionar na "China", como disse Ronny.
      - Combinei com o Mike que iramos nos encontrar na porta da entrada, comentou ele, caminhando apressadamente.
      Na fachada, lia-se em letras garrafais: "TRIO SIERRA". Ela sorriu na expectativa de ouvir aquele grupo.
      Ficaram correndo os olhos pelo povo que estava entrando e que, naquele momento, no era numeroso,  procura de Mike e Vicki. No os viram.
      - Vou procurar l dentro, disse Ronny. Quer ficar aqui um pouco mais, caso eles cheguem atrasados?
      - Como vou te encontrar depois? indagou Selena, enfiando a mo no bolso da cala para verificar se seu ingresso estava mesmo com ela.
      - Volto j, respondeu ele e foi saindo sem mais explicaes. Selena sentiu-se um pouco perdida ao v-lo afastar-se apressadamente. Reparou que ele estava bem 
vestido, mais arrumado do que de costume. Alis, ele lhe levara em casa um raminho de violetas, que a garota jogara na mesa da cozinha no momento em que saam. Achou 
que ele talvez estivesse querendo igualar-se a Paul, que levara os lrios para V May. Entretanto o rapaz explicou que estivera aparando o gramado de uma casa e 
em dado momento vira aquelas flores. Simplesmente no tivera coragem de passar o cortador de grama sobre elas.
      Selena ficou olhando para os lados, esperando e batendo o p meio impaciente. Por fim, comeou a ficar nervosa, vendo entrarem as ltimas pessoas que chegavam 
para o show. Certamente j devia ter comeado, e ela estava perdendo. Talvez no fosse to difcil encontrar Ronny l dentro. Vicki e Mike tzmbm j deviam estar 
l.
      Entregou seu ingresso e parou no saguo. A porta que dava para o salo estava fechada, mas conseguia ouvir os aplausos l dentro.
      O que devo fazer? Fico por aqui ou entro?
      Resolveu entrar. O auditrio estava lotado. A platia estuva aplaudindo de p. Compreendeu que havia perdido a primeira msica. Sentiu uma forte irritao. 
Era verdade que fora por sua culpa que haviam chegado atrasados, mas por que Ronny a largara na porta? Agora seria praticamente impossvel encontr-lo. Sentou-se 
numa poltrona do corredor, numa fileira onde no viu nenhum conhecido. Acabou reconhecendo que dali poderia apreciar a apresentao e ao mesmo tempo procurar o colega. 
E se no o achasse, aproveitaria o fato de que estava sozinha para analisar bem suas idias com relao a Paul e depois "arquiv-las" para sempre.
      A luz de um holofote se fixou no centro do palco. Em seguida, apareceram trs jovens, cada uma com um microfone na mo. Elas se puseram a cantar uma msica 
que falava sobre confiar em Deus. Tinham vozes suaves que se harmonizavam maravilhosamente bem. Selena gostou demais do trio. Sentiu que os cnticos delas iriam 
acalmar sua alma enquanto ela, a ss consigo mesma, "passava a limpo" alguns fatos de sua vida. Era exatamente do que precisava naquele momento. 
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      Captulo Vinte e Dois
      
      Ouvindo a cano seguinte, que era bem ritimada, Selena teve a sensao de que as peas de um quebra-cabea se encaixavam em seus lugares. A letra falava de 
paz e esperana. Escutando-a, percebeu que no era to importante assim ficar fazendo aquelas avaliaes espirituais com relao a Paul. Sentiu que estava relaxando 
a tenso.
      Correu os olhos pelo auditrio  procura de Ronny, mas no o avistou. Sabia que ele compreenderia o fato de ela haver entrado sem esper-lo. O rapaz era muito 
compreensivo e bastante paciente. Tambm era muito atencioso e bondoso com ela. Alis, Ronny era uma pessoa maravilhosa.
      Comeou a sorrir ao se lembrar de como ele lidara com as crianas na Highland House. , ele tinha razo. Os dois formavam uma tima dupla. E como ele aceitava 
bem as brincadeiras dela, como naquele dia, na Lotsa Tacos, quando pegara o dinheiro dele! Naquele instante deu se conta de que era com uma pessoa assim que ela 
se relacionava melhor: um amigo que a deixava ser exatamente como era, mas no permitia que ela dominasse o relacionamento.
      O trio encerrou a cano de forma harmoniosa, casando bem as vozes e dando a ltima nota num nico flego. A plateia explodiu em aplausos. Uma das cantoras, 
uma loira, deu um passo  frente para falar.
      - Meu nome  Wendi Foy Green, disse ela. Estas aqui so Deborah Schnelle e Jennifer Hendrix. Ns constitumos o Trio Sierra.
      O auditrio aplaudiu entusiasticamente.
      - Nesses anos em que estamos atuando juntas, continuou Wendi assim que os presentes foram silenciando, aprendemos muito sobre a amizade. Como acontece com 
qualquer relacionamento, ns tambm temos algumas dificuldades e mal-entendidos. Contudo cremos que precisamos apegar-nos firmemente ao verdadeiro amor, que  Jesus 
Cristo. Ele  o nico que pode nos manter unidas.
      Ao fundo, ouviram-se os acordes de um violo, e a cantora prosseguiu:
      - Compus esta cano em parceria com minha amiga Connie. Quando a escrevemos, estvamos pensando no amor de Jesus.
      Em seguida, ela olhou para Deborah e Jennifer e comeou a cantar.
      
      Tivemos muitos momentos,
      Alguns melhores que outros.
      E por vezes nossa devoo
      Passa por muitas provas.
      Contudo podemos permanecer juntas,
      Mesmo nos momentos mais escuros,
      Se compreendermos que o amor
       a ncora que sustm nossa vida.
      
      Persevere no amor,
      Pois  a nica coisa em que vale a pena nos firmarmos.
      Persista em amar,
      Porque no fim de tudo
      Descobrimos que  o amor
      Que nos sustenta.
      
      s vezes digo que preciso de voc.
      E voc tambm diz que precisa de mim,
      Mas se nosso corao ficar ferido,
      Ser necessrio cuidar dele.
      Pois no podemos nos descuidar
      Do amor que sentimos uns pelos outros.
      Precisamos abanar as chamas
      Para que elas possam se fortalecer.
      
      Nesse ponto, ouviu-se um solo de saxofone enquanto, atrs das cantoras, estavam sendo projetadas imagens em branco e preto numa grande tela. Eram cenas s 
com mos em vrias posies - orando, "lendo" em Braille, uma criancinha segurando o dedo da me e a mo de uma pessoa estendida para pegar a de um amigo.
      O trio voltou a repetir o coro, e Selena mais uma vez olhou para os lados  procura de Ronny. Sentia o corao batendo mais depressa. E elas cantavam:
      
      Persevere no amor,
      Pois  a nica coisa em que vale a pena nos firmarmos.
      Persista em amar,
      Porque no fim de tudo
      Descobrimos que  o amor
      Que nos sustenta.
      
      Enquanto o auditrio aplaudia, Selena deu um passo para o lado, para o corredor. Sentiu um forte impulso de sair e ir procurar Ronny. Era possvel que ela 
fosse mesmo meio demorada para entender os fatos relacionados com a amizade, como Tnia dissera. Talvez no conseguisse enxergar um bem precioso que estivera ali 
diante do seu nariz. Como Ronny, por exemplo. Ele estivera sempre por perto, o tempo todo. Levara-lhe uma rosa na noite em que iria ter seu importante encontro com 
Vicki. Oferecera-se para ir ficar no lugar do Tio Mac. E at se lembrara de Selena quando estivera para cortar as violetas no gramado.
      Por que no enxergara isso antes? Amy tinha razo! Selena ficara to envolvida no seu sonho com Paul que nem dera atenco  verdadeira amizade que Ronny tinha 
por ela.
      Saiu apressada para o saguo do teatro e se ps a correr os olhos em volta, na esperana de que ele houvesse retornado ali  sua procura. No o via em parte 
alguma. De repente, com o canto do olho, avistou uma figura solitria l fora, no ponto onde ele a havia deixado.
      Ser que  o Ronny?
      Abriu a porta de vidro e saiu apressadamente ao ar frio da noite.
      - Ronny! gritou. Estou aqui, Ronny!
      Ele se virou e, assim que a viu, em seu rosto estampou-se uma expresso de alvio. Correram um em direo ao outro e se encontraram no meio do caminho. Imediatamente 
ambos se puseram a dar explicaes, falando ao mesmo tempo.
      Num gesto impulsivo, Selena abriu os braos e, de todo o corao, deu um abrao no amigo. Quando ela se afastou, o rapaz fitou-a espantado.
      - Tudo bem com voc? indagou, procurando enxergar nas feies dela a resposta de sua pergunta.
      A garota se ps a rir, e com o riso escaparam de seus olhos tambm algumas lgrimas. No conseguia falar.
      - Ei! O que foi? perguntou Ronny.
      Aparentemente ele no estava sabendo como agir. Ficou parado ao lado dela, a cabea inclinada, aguardando que Selena dissesse algo.
      - Ronny, principiou ela, finalmente recuperando a fala, eu...
      Limpou as lgrimas, sentindo-se leve e renovada interiormente.
      - ... quero lhe agradecer por ser meu amigo e por se como voc . Acho-o uma pessoa maravilhosa!
      O rapaz fitou-a atento e foi dando seu sorriso tpico.
      - S agora que voc descobriu isso?
      Selena riu de novo. Sabia que no precisaria dar explicaes para ele, nem ele as pediria. Era assim mesmo que ela queria que sua vida fosse. Queria estar 
ali, naquele momento, com seu amigo Ronny.
      - Quer voltar l para dentro? perguntou ele.
      Selena fez que sim e limpou o resto das lgrimas que ainda haviam ficado nos clios. Eles se viraram para entrar e Ronny, com sua mo grande e spera, segurou 
a mo da garota e deu-lhe um aperto de leve. Ela apertou a dele tambm, sentindo no corao um pedacinho do cu.
      Naquele instante, fechou os olhos e expressou o desejo de nunca se contentar com nada, a no ser com o melhor que Deus tivesse para ela.
      
      
      
      Fim
      



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